Com um percurso marcado pela dedicação, pela ambição e pela vontade de se afirmar na sua área, Carlota Cristo fala-nos sobre o seu caminho, os desafios que encontrou e as experiências que contribuíram para a pessoa que é hoje. Numa conversa aberta e próxima, partilha as suas perspetivas, motivações e objetivos para o futuro.

Pelo que sei, começaste no futebol mesmo muito novinha. O que é que te apaixonou no futebol naquela altura? Foi só uma de experimentar atividades ou foi mesmo algo que já sabias eu quero jogar futebol?
Na altura eu comecei com os meus 7, 8 anos por aí e eu já brincava na primária com os rapazes no recreio de jogar futebol e sempre, não sei porquê, mas sempre tive esse gosto. Depois pedi ao meu pai para ver se podia experimentar mesmo no clube lá em Tavira e ele inscreveu-me, depois gostei porque também tinha lá os meus amigos e foi mais por aí e apaixonei-me pelo desporto.
E sempre sentiste apoio dos teus pais? Nunca houve aquele julgamento de não, tu és menina, tens que ir para o balé?
Sim, sempre me apoiaram em tudo, inclusive até me incentivavam porque na altura quando era mais nova houve um ou dois treinos que sentia-me um bocadinho mais à parte porque era menina e na altura não havia meninas, eu era a única a jogar, então eu sentia-me assim um bocadinho á parte, e eles diziam, não não mas se é o que tu gostas vai, eu era muito pequenina então eles sempre me apoiaram nisso
E por exemplo o treinador, ele sempre te tratou de igual para igual ou sentias que havia ali uma, às vezes não é discriminação, mas até mais proteção?
Sim, quando era mais nova sentia um bocadinho, mas não percebia, mas agora olhando para trás havia ali uma proteção lá está, mas como eu disse na altura não havia meninas eu era a única e acho que sentiam ah temos de proteger a menina, ele meteu-me como capitã para eles depois me respeitarem um bocadinho melhor, era coisinhas assim mínimas, mas que fez com que também os meus colegas me integrassem, me ajudassem.
Depois houve um dia em que a Carlota não podia jogar mais porque, pronto, já não podia haver equipas mistas, como é que foi?
Sim, foi por volta dos 12 anos, pronto, não podia mais jogar em equipas mistas e no Algarve não havia equipas femininas, então eu meio que vi a minha vida andar para trás porque futebol era mesmo o que eu queria, mas eu antes de acabar o futebol, eu já jogava ténis, então eu fazia os dois desportos, então meio que foi fácil , pensei ah, se o futebol não dava, vou continuar a jogar ténis e na altura foi o que eu fiz, deixei o futebol e joguei ténis durante um ano.
Então durante essa altura imaginaste que tinha acabado ali o futebol?
Sim, pensei pronto, já não há mais futebol, agora dedico-me só a ténis, foi exatamente isso.
Depois surge uma oportunidade de voltares para o futebol e tu sentes ok, é agora eu quero ir ou ficas um bocadinho reticente por aquilo que já tinhas passado?
Na altura fiquei reticente, mas fiquei entusiasmada porque o meu regresso ao futebol foi um bocado atípico, porque foi na altura o selecionador da seleção do Algarve, soube que eu jogava futebol e lá está como no Algarve não havia muitas equipas femininas nem meninas a jogar, eu era uma das que poderia integrar a seleção do Algarve e na altura lá estava, jogava ténis, mas ele contactou-me na mesma a perguntar, olha é esta a oportunidade se quiseres e eu porque não? Eu sempre gostei de futebol, então fui aos treinos da seleção do Algarve, claro que o bichinho do futebol ainda estava lá e pronto foi a partir daí, fomos fazer o torneio de interassociações, eu sem clube, sem jogar futebol e as outras meninas eram mais novas, mas ainda podiam jogar com rapazes. E eu no torneio de interassociações fui a melhor jogadora do torneio e foi a partir daí que eu pensei, se calhar o futebol…
É mesmo, isto não é o ténis.
Não, isto não é o ténis e depois foi desta altura, depois desse torneio que o Guia Futebol Clube abriu a equipa feminina.

E se o Guia Futebol Clube não tivesse nessa altura aberto a escola, digamos assim, os treinos para tu conseguires continuar, achas que tinhas mesmo deixado para trás ou que ainda ias procurar alguma coisa? Ou seja, esse torneio que fizeste reacendeu o bichinho ou achas que o que fez mesmo querer continuar foi o Guia ter-te dado essa opção?
No torneio sim, reacendeu o bichinho e pronto, o que eu queria fazer na altura, quando acabou o torneio, era continuar a jogar futebol. Se o Guia não tivesse aberto, eu, sendo muito sincera, se calhar teria continuado no ténis e o futebol continuava a ser o que era o futebol, que era… Ah, se me chamassem para mais torneios, eu ia, porque não havia mais equipas ali no Algarve, só havia depois em Lisboa, mas eu era muito novinha para estar assim do Algarve. Não é como os rapazes que eles novos vão para todo o lado.
O futebol feminino era nada certo, então pronto, o Guia foi basicamente a minha salvação, entre aspas, para continuar no futebol.
Aos 19 surge aqui uma oportunidade se calhar um bocadinho diferente das outras pessoas, numa fase em que os teus colegas se calhar estão a ir para a Universidade ali para Lisboa, alguns na maior das loucuras até vão para o Porto tu recebes uma oportunidade de ir para Itália. Como é que isso surgiu?
Na altura tinha acabado o secundário, estava no Guia e foi assim, muito rapidamente se recebeu um telefonema de um senhor aí do Algarve, a perguntar-me se eu estava interessada nesta proposta de jogar para fora, eu. Pensaram, pronto, se não vou para Lisboa, não vou para o Porto, porque não irei para fora.
E pronto, a equipa era a Verona, tinham acabado de subir para a primeira divisão, e pronto, arrisquei e fui. Não me arrependo de nada, claro que foi uma situação difícil, porque elas tinham acabado de subir, foi na fase do inverno, estava muito frio, muito frio. E pronto, fiquei lá a meia época e cresci muito como jogadora, como pessoa, que foi a primeira experiência que eu tive. Pronto, saí da casa dos meus pais e do meu ambiente, e como tu disseste, não fui para Lisboa, nem para o Porto, fui para a Itália. Então foi complicado, mas foi bom em termos de crescimento e crescimento pessoal e como jogadora.
E os pais nessa altura, como é que foi para eles também?
Sempre a apoiar. Se queres vai
E foi nessa altura que recebeste essa proposta, que percebeste, ok, então se calhar o futebol é mesmo aquilo que eu vou ser, é mesmo a minha profissão.
Sim, foi a partir daí que eu comecei a perceber que se calhar conseguia fazer disto de vida, jogar profissionalmente, o que eu nunca tinha pensado, mesmo de jogar no guia, eu estudava, era uma coisa amadora, era três vezes por semana e de repente vou para um contexto profissional, vivia daquilo e vivo. E foi aí que eu percebi, ah, se calhar é mesmo isto que eu quero fazer para o resto da minha vida.
Ou seja, foi aquilo que falámos há bocadinho, do Algarve para Verona são inúmeros quilómetros de distância. Como é que uma jovem de 19 anos lida com a distância e o que é que se calhar sentiste mais saudades do Algarve?
Como eu disse, sofreu, fazia muito frio lá. Primeiro era o tempo.E lá era nevado e tudo, e nós treinávamos com neve, então aquilo era, foi um bocado complicado a temperatura. Depois em termos, lá está, distância da minha família, os meus pais sempre me apoiaram.
Então eu nunca senti que havia, pronto, claro que tinha saudades deles e da minha família e estar com eles, mas lá está, videochamadas e telefonemas ajudavam sempre um bocado. E foi mais por aí, nunca sofri muito nesse aspecto, foi mesmo, o pior foi mesmo a temperatura.

Depois em 2018 temos aqui a chegada ao Benfica. Ou seja, o que é que sentiste quando recebeste essa oportunidade? Porque estamos a falar, pronto, do Benfica, que é um clube grande do nosso país.
Sim, eu nunca escondi que o Benfica é o clube do meu coração. Portanto, quando eu recebi o telefonema, foi uma loucura. Até pensei que estavam a brincar comigo, que aquilo era fake. Fiquei com muito entusiasmo e estava a pensar, isto não está a acontecer, que sonho, vai se tornar realidade. Sempre quis jogar no Benfica, mas o Benfica não tinha equipa feminina, então entretanto, quando abriu a equipa feminina e eles me quiseram lá, foi um sonho tornado realidade. E não há palavras para descrever, foi um grande momento.
É, porque o Benfica estava efetivamente a começar a construir a sua equipa. Tu tinhas noção de que ias fazer parte daquele momento bastante importante?
Na altura, quando me ligaram, não. Depois, quando cheguei lá, sim, eu pensei, ah, isto está mesmo a acontecer. Ok, estou aqui, isto é a primeira equipa do Benfica, faço parte dela. E depois, claro, as outras jogadoras, jogadoras já com nome, mais velhas, me deram uma mais novinha. E eu a perceber, ok, isto é mesmo muito profissional, isto é o Benfica. Depois, claro, voltei para Portugal, é sempre aquele misto de emoções, perto da minha família, eu jogar no Benfica. Não podia, podia melhor.
Como é que foi entrares num clube dessa dimensão? Porque pronto, o Verona era em Itália, mas lá está. E quando nós gostamos de um clube, acho que tem outro encanto.Não é só o facto, às vezes, de entrarmos num estádio como adeptos, já é importante. Quanto mais, ok, eu vou fazer parte disto, eu vou ser uma jogadora do meu clube. Como é que alguém com 20 anos lida com essa própria responsabilidade que nós próprios metemos em nós?
Foi bom, mas foi complicado, mas complicado com responsabilidade. Porque depois de vestir aquela camisola, tu sentes um peso que… Mas já é um peso bom, porque estás a representar um clube enorme em Portugal. Depois, as meninas mais novas já olham para nós de uma maneira…
Com mais respeito. E admiração.
E eu cheguei lá e pensei assim, mas eu não sou ninguém, eu só estou aqui. Só tive em Itália, não tinha feito grande coisa. E as meninas olhavam para mim com um diferente olhar. Então foi um peso muito bom, com muito orgulho. E eu estava muito entusiasmada para representar aquele clube. Foi fantástico.
E acho que se notou, porque foi uma época de estreia muito produtiva, não é? Pelo que eu estive a ver. O que é que achas que esteve por trás desse rendimento? Foi a vontade? Foi também ter-se estado em Itália e perceber as diferenças?
Eu acho que também foi a maneira como o Benfica trabalha. Porque dá-nos exatamente que tinha uma extra motivação por estar a jogar no clube do meu coração. E depois é o trabalho por trás de tudo, não é? O Benfica tem uma grande estrutura, grandes pessoas que trabalham lá, profissionais. E acho que isso também, ao fim e ao cabo, depois nos jogos, era o que se refletia. Trabalhávamos imenso durante a semana e depois nos jogos saía tudo quase perfeito. Fizemos uma época, eu diria, perfeita, na verdade. Ganhámos a Taça de Portugal, fomos campeãs, subimos para a primeira divisão e eu, a nível pessoal, fiz imensos golos.
Portanto, acho que também foi um balanço de… Ok, eu estou a jogar no melhor clube, que para mim é o melhor clube do mundo. E depois uma equipa comigo que me ajuda e que me faz também super sair. E pronto, foi por aí.
O que é que significou para um clube que estava a começar e também para vocês que eram novinhas, e principalmente para ti, conquistar a Taça de Portugal e subir de divisão?
Tudo na mesma época. Para mim, a Taça de Portugal foi outro sonho. Sempre ouvi falar da Taça de Portugal. Há muitos anos atrás, quando se calhar ainda jogava ténis, já ouvia falar da Taça de Portugal, porque eram as equipas lá do Norte e de Lisboa, disputavam a Taça de Portugal. Quando tive a oportunidade de disputar, afinal, no estádio de Jamor, com milhares de pessoas a ver, e depois era o Benfica, não é? Imensa gente foi ver aquele jogo. Foi num sentimento de… Ok Carlota, estás aqui, está a acontecer.
Mas foi espetacular. Depois subir aquela escadaria toda para receber a Taça. E lá foi uma época que nós conquistámos, literalmente, para conquistar. Ou seja, foi 100% positiva. E tanto para mim a nível pessoal, também senti que primeiramente estava-me a divertir, que também é importante, e estava a conseguir ter os meus objetivos frescos, que eram marcar gols na altura e ajudar a equipa. E foi assim que aconteceu.

Há algum momento que dessa passagem pelo Benfica para além aqui da Taça de Portugal que guardes de forma especial?
Se calhar foi mesmo a conquista da Taça de Portugal. Porque nós, sendo uma equipa… Eles criaram a equipa para ser campeãs e tudo mais, mas nós vínhamos de uma segunda divisão e se calhar ninguém acreditava que pudéssemos conquistar mesmo a Taça de Portugal. Porque as outras equipas já estavam cá há muitos anos, já se conheciam umas às outras.
E nós caímos aqui em meio de paraquedas e ganhámos a Taça de Portugal. E foi uma bonita festa e acho que surpreendemos muita gente que se calhar não acreditava.
Quando olhas para aquela Carlota que chegou ao Benfica, o que é que achas que ela ainda não sabia sobre a jogadora que se viria a tornar?
Deixa-me, vou perguntar
Eu era muito novinha. Acho que ela não fazia ideia de que o futebol em Portugal também viria a crescer como está a crescer. Está a crescer imenso. A maior parte das equipas estão na Liga BPI, todas profissionais. E a segunda divisão, umas que não são profissionais, mas quase, ou lá perto estão. E já temos uma terceira, quarta divisão. Já se vê imensas meninas a jogar futebol. Na minha altura, mesmo quando eu cheguei ao Benfica, havia só algumas, mas não eram tantas. Não eram muitas. E mesmo os clubes gigantes, vejo que apostam imenso na formação. E eu, na altura, pensava nem havia formação quase.
Então, é isso. Eu vejo uma evolução no futebol feminino gigante e espero que assim o continue a ser. Mas daqui a 10 anos, eu vejo outra vez eu, a Carlota de agora, a pensar que agora aqui estão.
Depois do Benfica passaste por vários clubes, foi uma decisão tua procurares novos desafios ou foram circunstâncias que te obrigaram a mudar?
Os dois. Vou dizer os dois. Tanto que a primeira vez que fui emprestada do Benfica para o Valadares foi uma opção mútua, deles e minha, porque eu sabia que se calhar não ia ter tantos minutos e queria ter os minutos, não é? Então optamos por ser emprestada ao Valadares e que também fiz uma época muito boa e adorei estar no Valadares. Para mim é um dos… um clube que está aqui no meu coração. Adorei estar no Valadares.
E pronto, depois também houve outras circunstâncias, que é o futebol. Que se calhar não sou eu que escolho, mas o clube depois também não me encaixava ali e está tudo bem com isso. Faz parte do crescimento.
E o que é que aprendeste, por exemplo, no Valadares, no Damaiense?
Por exemplo, o Valadares e o Damaiense são clubes mais da terra, mais pequenos em termos de condições e tudo mais, mas nunca nos faltou nada. Mas senti que se calhar clubes mais pequenos conseguem-nos dar… Como é que eu ia dizer isto? Para não parecer mal. Um clube do Benfica, que é gigante, é muito grande e tem muita gente.

Conseguem se calhar dar mais atenção à jogadora em si, não é?
Não estou a dizer em termos de condições, mas sim a nível pessoal. Está a perceber? E acho que foi por aí que eu também aprendi que se calhar os clubes gigantes não é tudo isto.
É, mas… É, claro.
É mais show-off, não é? Os jogadores e as pessoas se calhar ficam um bocadinho encostadas. Tens de dar o teu rendimento, mas se não estiveres bem, nós vamos buscar outro e está tudo.
Exatamente. Eu penso que, por exemplo, o Torreense, que também começou um clubezinho da terra e agora onde é que ele já está? É mesmo assim.
Houve alguma fase em que tenha passado pela cabeça desistir?
Quando tive as minhas lesões. Por aí, sim. Tive, pronto, duas lesões. Graves no joelho, em ambos. E nas duas pensei, por onde estou agora? Se calhar na primeira não tanto, porque era mais nova, mas passou-me pela cabeça porque é que eu estou a fazer isto? Se calhar é melhor desistir. Depois era um processo muito grande. Mas depois pensei, sou novita, isto ainda tenho tempo. A segunda é que já foi um bocadinho mais complicado. Já pensei mesmo, vamos passar por isto outra vez. Já sei como é que é. Mais um ano de fora. Será que vale a pena? E isso passou-me pela cabeça várias vezes. Mas, com o apoio da minha família e dos meus amigos, eles la me fizeram ver que tas viva.
Como é que se lida com a lesão? Se calhar não tanto quando somos mais novas, mas mais agora. Porque já sabemos o peso de uma lesão. Já vemos as caras de preocupações à nossa volta. E se calhar, às vezes, não é tanto por nós, mas mais pelos outros. Porque nós podemos estar no chão e não sentir bem a dor daquilo que é, mas ver as pessoas à volta com cara de pânico. Como é que se lida com isso tudo?
É complicado. Principalmente eu, quando me lesionei na segunda vez, foi mais complicado porque a minha família também estava lá. E se calhar ver as caras preocupadas. A minha mãe dizia, ai agora, já era a segunda vez já sabia o que ia acontecer. Se calhar também é mais por aí. Ver as pessoas de fora a sofrerem por nós, que também é complicado às vezes. Mas acho que a minha família sempre me apoiou. E nunca quiseram que eu desistisse. E acho que foi a principal ajuda que eu tive nesse aspeto de não desistir, foi a minha família. Mas é difícil. É difícil de superar lesões

E agora vamos ao outro lado da moeda, que é quais é que foram os momentos, ou se calhar o momento em que sentiste não é isto que eu quero fazer para a minha vida, enquanto doer, é isto mesmo?
Se calhar quando fui chamada para a Seleção Nacional pela primeira vez. Por lá está foi bem. Nem tinha clube, ainda jogava tenis. Foi depois de fazer aquele torneio. Fui chamada à Seleção Nacional de 16 na altura. E representar Portugal é sempre um orgulho. Acho que qualquer desportista, qualquer atleta tem o sonho de representar Portugal e eu tendo chegado a esse patamar pensei, não, isto é o que eu quero fazer. E quero estar aqui mais vezes.
E como é que foi vestir pela primeira vez a camisola da Seleção?
Foi um momento de muito orgulho, muita responsabilidade nervosismo não vou mentir, muito nervosismo mas um orgulho em ok Carlota, o teu trabalho está a ser recompensado, isto é o que tu queres fazer, estás num lugar onde milhares de meninas mulheres querem estar portanto aproveita e desfruta. Foi exatamente isso. Mas depois quando o hino começa a tocar quase começo a chorar.
É normal. Ou seja, o que é que significa para a Carlota de 16 anos estar ali a representar a Seleção?
Eu acho que era tão novinha que se calhar não percebia. Poxa Carlota, tu estiveste ali Mas na altura com 16 anos uma pessoa, somos tão novinhas. Mas na altura sabia que aquilo era o culminar da nossa carreira, nossa mini carreira que ainda era pequenino mas foi muito bom e acho que olhando para trás agora penso que não mudava nada e acho que estava a fazer as coisas certas na altura.
E qual é que é assim o momento das Seleções que te marcou mais?
Foi quando fui chamada para o Algarve Cup, para a Seleção A. A primeira vez que eu fui chamada para a Seleção A foi para representar Portugal no Algarve Cup e pronto, ser chamada para a Seleção A acho mal me está a dizer, não é? Eu tinha passado pelas camadas jovens todas da Seleção e pronto, qualquer menina que lá está o sonho é sempre chegar para a Seleção A e nesse momento quando o Selecionador o Professor Francisco Neto porque foi ele mesmo que me ligou olha, estás convocado? Liga logo ao meu pai, à minha mãe não vou acreditar e foi, acho que esse foi um dos melhores momentos também.

Voltando aqui um bocadinho voltando um bocadinho atrás, tiveste uma experiência no estrangeiro depois do Benfica?
Sim, depois de ter estado no Benfica, no Valadares no Damaiense depois fui para a Grécia
O que é que te leva a aceitar esse desafio de vou arrumar outra vez para fora de Portugal? Já estava num vou dizer num ciclo que eu tinha acabado de estar no Damaiense, tinha estado em Itália com 19 anos depois tive estes anos todos até foi há dois anos que eu estive na Grécia não foi um passado, foi outro ano
É assim, pela linha cronológica acho que sim
É, isso sim eram foi estes anos todos em Portugal, não sei o quê então acho que tinha surgido a oportunidade de ir para a Grécia e eu pensei, por que não sair outra vez de Portugal? E foi uma proposta boa na ilha de Creta, também não estava a viver mal e pronto surgiu a oportunidade de sair de Portugal e eu aproveitei e fui
Já tens duas experiências fora de Portugal o que é que identificas que seja mais diferente, ou seja, as diferenças de Portugal para a Itália e para a Grécia no que toca ao futebol feminino?
Itália está a um nível, vou dizer que se calhar agora está ao mesmo nível que Portugal, em termos de condições e profissionalismo e tudo mais a Grécia está um bocadinho atrás ainda mas também está em crescimento está como se calhar Portugal estava há 3 ou 4 anos atrás em crescimento e sei que vão ter um campeonato também muito competitivo daqui a 2 ou 3 anos e acho que são mais ou menos estas diferenças, Itália pronto, tem boas equipas Juventus, Felaz e tudo mais a Grécia temos uma equipa que é boa que é o PAOK, que foi à Champions League mas depois tens outras que são muito competitivas entre elas mas depois não saem dali, não é? e acho que é mais por aí a diferença
Então com que perspetivas é que tu chegaste a Portugal sobre a tua carreira?
Agora quando regressei da Grécia? eu eu também fiz lá metade só de uma temporada porque entretanto recebi o convite de ir para o Rio Ave e pronto, eu gosto de estar no Portugal, não vou mentir, adoro Portugal e como o futebol feminino está a crescer cá eu pensei, pronto, vou regressar a Portugal com o objetivo de na altura era de ajudar o Rio Ave a subir para a primeira divisão de ajudar o Rio Ave a subir à primeira divisão e a minha expectativa era, ok, vou voltar a Portugal, vou tentar fazer uma boa época já mais no contexto de me divertir mais e não tanto de eu não sei, de objetivos pessoais eu se calhar já não penso em voltar a uma seleção e tudo mais já estou noutro patamar mas mas sempre no aspecto de vou me divertir, vou ajudar a equipe em que eu estou vou dar tudo o que tenho e tentar divertir-me ao máximo com o que o futebol ainda me pode dar e foi com esse intuito e com esse pensamento que eu regressei agora a Portugal, depois de ter estado na Grécia
Então, estamos a falar de uma carreira com algumas deslocações com algumas lesões houve algum momento em que sentiste falta de confiança?
Sim, acho que qualquer jogadora passa por essa fase, se calhar quando estava a jogar menos depois de voltar de uma lesão por aí sim mas quando nós jogamos sentimos sempre, se calhar não sou tão boa se calhar falta isto, falta aquilo, é sempre se calhar não é nada por isso é só por opções também mas a confiança depois aí vai um bocadinho abaixo e acho que era o que acontecia comigo quando jogava menos

E achas que voltar a Portugal jogar pelo Rio Ave ajudou-te a recuperar essa confiança?
Sim Sim, porque eu também cheguei a um grupo do Rio Ave com muitas colegas que eu conheço, um balneário incrível e isso também ajudou depois subimos para a primeira divisão ou seja, fizemos uma segunda divisão muito boa, subimos para a primeira divisão continuei no Rio Ave o ano passado, estávamos na Liga BPI pronto, fomos a playoffs para não descer, mas mantivemos na Liga BPI e pronto o regresso a Portugal foi muito bom foi positivo e acho que a confiança quando corre bem, a nossa confiança também está bem
Então e como é que surge agora o Gil Vicente?
Pronto depois de ter estado no Rio Ave o Gil Vicente chegou-se a estar à frente fizeram-me uma proposta e eu gostei muito da proposta que me fizeram, tem um projeto muito bom muito aliciante lá está, estamos a lutar para ser campeões e subir divisão isso não é discutível é o objetivo principal e também encontrei aqui um grupo muito jovem, um balneário muito bom, treinador e staff impecáveis e espero que no final possamos sorrir
O que é que sentes que queres acrescentar à equipa?
Seja dentro ou fora de campo eu sou uma pessoa que sou muito tranquila e dou um bem com toda a gente primeiramente quero transmitir que principalmente as jogadoras mais novas possam vir falar comigo sobre qualquer problema que tenham seja tático, técnico, qualquer coisa do futebol mesmo se for a nível pessoal eu sou aberta a isso e quero que seja essa pessoa depois dentro de campo acho que já sou uma jogadora com muita experiência que posso também acrescentar isso e ajudá-las e transmitir isso no jogo e mesmo em treino
Mas é muito bem. Também tenho de ser sempre engraçada e dizer-lhes, olha, divirtam-se que isso se passa rápido, porque elas são muito novas, têm 19, 20 anos, por aí, então dou-lhes sempre a dar alguns feedbacks e alguma ajuda também.

Quando chegas ao Gil Vicente, sentes que estavas a começar mais um capítulo ou que estás numa fase de consolidação da tua carreira?
Ui, é uma pergunta também assim, acho que vou dizer os dois, porque pronto, é sempre um capítulo novo na nossa vida enquanto desportistas e é outra equipa, outra época e lá está como eu disse, estou aqui para ajudar e quero cumprir os objetivos da equipa. Mas também estou numa fase em que já penso em outras coisas, já penso no pós-futebol, já quero, pronto, já não quero algo muito sério, mas sério na mesma, obviamente, e com responsabilidade e tudo mais. Mas confesso que já estou a pensar no pós-futebol, sim.
Como é que te descreves dentro de campo?
Dentro de campo? Eu acho que sou uma pessoa com raça, não dou nenhum lance para perdido. Sou ponta de lança, tenho de ser matadora ali dentro da área e acho que o meu ponto forte é mais o jogo aéreo e tudo mais, mais por aí.
Tu sentes que ficas muito ligada aos momentos negativos ou consegues desligar e bola para a frente?
Desligar muito fácil. Eu vou-te estar aqui a falar, eu também acho que sim. Não, felizmente sim, consigo. Eu sou uma pessoa muito positiva, claro que fico triste se alguma coisa correr mal, não sei o que é, mas tento sempre ver o lado positivo da moeda e tento sempre seguir em frente e pronto, passou, passou.
Houve alguém que tenha acreditado em ti numa altura em que tu própria duvidaste?
A minha família, principalmente depois quando eu disse das lesões e tudo mais, e quando se calhar não jogava também, chateava muito o meu pai na altura, agora eu não estou a jogar e ele dizia sempre, se é o futebol faz parte. Portanto, a minha família, sem dúvida.
Tu tens estado presente no futebol português quase, digamos, desde o seu início. O que é que sentes que mudou desde que começaste?
Desde que comecei, primeiro, as condições que nos dão, o número de atletas femininas que já temos, que são muitas, e a aposta dos clubes grandes e sem ser grandes, porque na altura, como eu disse, não havia quase equipas femininas, e quando, pronto, Sporting, Braga, Benfica, na altura, agora o Porto mais recentemente, mas na altura eram só essas, que apostaram, viu-se um crescimento muito grande do futebol feminino.
Mas ainda existem obstáculos que uma jovem que quer jogar futebol, se calhar vai ter uns obstáculos que um rapaz não tem, certo?
Bem, isso vai sempre haver, e acho que, pronto, a nível de condições, pronto, condições, se calhar, nós se calhar treinamos num campo e eles treinam no outro. Não podemos treinar nas mesmas condições, a nível de, ah, eles podem treinar em relevo, mas nós temos que treinar em sintético. Porquê? Ou mesmo, ah, eles têm um balneário melhor e nós temos este. Porquê? Não é mau, mas porque é que não temos também o melhor? Se trabalhamos todos e jogamos 50 minutos, é tudo igual.
Ou seja, eu acho que ainda há muita essa discriminação, vamos dizer, mas acho que estamos num bom caminho e para lá caminhamos. Eu vejo agora um Braga com umas condições extraordinárias só para elas, tem um edifício só para elas, um campo só para elas, e eu acho que daqui uns anos vai ser assim com quase todas ou todas as equipas em Portugal.
O que dirias a uma menina que está agora, pronta, a começar no futebol e que sonha chegar a um clube como o Benfica?
Olha, eu diria para ela nunca desistir e continuar a lutar pelos sonhos dela e nunca deixar de estudar, porque isto do futebol também é cao e também é importante, nem falámos de estudos aqui, mas também é importante. E pronto, para continuar a fazer o que ela gosta e se é o que ela quer, pronto, é seguir em frente quando há de chegar lá.
Isso é um tema importante, os estudos, não é? Dá sempre para conciliar o sonho com as responsabilidades, certo?
Dá, se nós quisermos muito, dá, dá perfeitamente, porque nós sendo atletas temos e não temos muito tempo, mas é o que eu digo, temos que continuar a estudar, porque mesmo os homens também isto não é para sempre, então nós mulheres também não é para sempre e se calhar temos menos oportunidades que os homens depois pós carreira, portanto eu digo sempre continuem a estudar, porque temos de ter um plano B.
E o plano B, como é que, ou seja, tu tens um plano B, certo?
Tenho.
Como é que uma Carlota que aos 19 anos foi para a Itália, que depois foi para a Benfica, como é que conseguiste conciliar o teu plano B com o futebol?
Eu digo-te agora, fui fazendo-se porque, pronto, eu andava sempre de um lado para o outro e tive que girar aqui, entretanto quando fui para Lisboa entrei na faculdade, que era no ISSEC, que até fazia, era parceria com a Benfica, para desportos, sinceramente não consegui conciliar, porque tive que desistir, não sei o quê, porque não dava, depois fui apostada para o Valadares e fui para o Norte, depois do Valadares fui para o Damaiense, então andava-se sempre de um lado para o outro e eu pensei, pronto, isto também estou aqui, não vai dar, então optei por tirar o curso online, que foi a minha salvação e foi quando eu consegui tirar o meu curso foi online. E é o que eu digo, há sempre maneiras de o fazer, se calhar não fiz como uma dita pessoa normal, que é, sais do secundário, entras na faculdade, fazes os teus 3, 4 anos, se calhar tiras o mestrado, o dito que as pessoas dizem que é normal, mas fiz, acabou o meu curso e estou pronto já a pensar no meu plano B.
O normal aqui é o teu normal, não é porque não é o normal uma pessoa de 20 anos ir para a Itália, para o futebol, nós acabamos ali a escola e agora vais para a universidade, portanto acho que dentro daquilo que não é o normal conseguiste ter um plano B muito bom e é importante sim falarmos disso.
Sim, sim, e é o que eu digo, eu acho que as pessoas, eu às vezes vejo meninos de 18, 19 anos aqui, por exemplo, agora aqui no Gil Vicente sempre eu digo, olha, já estás a estudar, tens tempo, não seis como eu, vai, pronto, e é isso que eu também tenho de transmitir a elas, é o plano B que é importante. Mas futebol sim, agora tens o futebol como plano A e desfruta até quando der, que é o que eu também estou a fazer, depois quando não der, pronto, não dá.
O que é que sentes que ainda te falta conquistar no futebol?
Outra boa pergunta. Eu acho que não sinto que me falta alguma coisa, mas pronto, acho que não me falta assim nada, mas quero continuar a jogar enquanto posso e desfrutar do futebol, que é o que eu gosto de fazer e que me dá paixão, e pronto, acho que é por aí. Falta se calhar divertir-me mais, vou dizer isso.
Ou seja, quando tu falas em divertir-se mais, o que é que tu queres dizer com isso?
Às vezes vou para os treinos e penso, ah se calhar não me apetece hoje, acordo de manhã e se calhar não me apetece, e eu não, isso não é o que tu gostas de fazer, vai lá divertir-se, não sei o que, vai lá dar uns toques na bola, mas eu digo sempre é divertir-se com responsabilidade, porque há momentos nos treinos que dá para divertir-se e há outros que temos que ser mais sérios. Mas é aquela sensação de acabar o treino e pensar, ai não, hoje foi divertido, foi um bom treino, em vez de, ai, que maçada, não gosto de nada estar aqui. Eu antes era mais assim, quando não corria bem, se calhar pensava assim, mas depois que estava a casa e também me esquecia logo disso. Passava. É, mas é mais isso.
Onde é que gostarias de estar daqui a cinco anos?
Daqui a cinco anos, não sei se ainda vou estar a jogar futebol, não sei, já vou ter 33 anos, portanto se calhar não estaria a jogar futebol, mas gostaria de estar ligada ao futebol.Ou seja, se calhar ter algum projeto no futebol, ou mesmo dentro de um clube.
Usar aqui o plano B, não é? Sim, algo assim desse género, vou dizer. Nada certo, mas algo assim.
Se pudesses voltar atrás e falar com a Carlota, que recebeu a notícia de que não podia jogar mais futebol porque ia-se acabar a equipa mista, o que é que tu lhe dizias?
Eu lhe dizia, olha, tem calma, tem calma que isto, pelo menos isso, olha, o futebol, há mais desportos de futebol, mas tem calma que as coisas vão-se encaminhar e que o futebol feminino em Portugal, isto é só o começo. E era o que eu lhe dizia, para ela relaxar, porque eu estava muito estressada na altura, sem jogar futebol, mas acho que era isso que eu lhe dizia.
A tua história começa aqui com uma menina que teve que deixar o futebol, porque não havia espaço para ela, e hoje em dia és uma jogadora profissional, já representaste Portugal na seleção, ou seja, se essa menina pudesse ver onde é que chegaste, o que é que achas que ela ia sentir?
Acho que ela ia sentir muito orgulho, ia ficar muito feliz, porque na altura ela não acreditava que isso pudesse acontecer, e agradecer muito à minha família por também não ter dado sempre asas para voar, vai para a Itália, vai para aqui, vai para ali, e acho que era isso que eu lhe dizia.
Entrevista de Ana Catarina Santos
Entrevista também disponível em audio no Spotify! (Entrevista completa em versão audio ! )






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