CNN Brasil

Em outubro de 2003, a revista americana Time colocou Bragança no mapa mundial com a matéria intitulada “Europe’s New Red Light District”, detalhando o movimento conhecido como Mães de Bragança. O movimento surgiu a partir de um abaixo-assinado cujo objetivo era expulsar brasileiras que, supostamente, seduziam seus maridos. O manifesto, levado às autoridades locais, culminou em ações contra a imigração ilegal e a prostituição, desmantelando uma rede de tráfico sexual que havia trazido muitas brasileiras para a região.

As brasileiras vítimas passaram a ser retratadas como sedutoras do além-mar, aliciadoras de homens e manipuladoras de relações, segundo relatos presentes no livro Enredos Sexuais, Tradição e Mudança (2016), do investigador José Machado Pais.

O movimento Mães de Bragança tornou-se um ícone das representações xenófobas e da estereotipação de gênero no cotidiano das brasileiras. Com a cobertura da imprensa portuguesa na época, observou-se uma representação midiática sensacionalista e superficial. Mesmo décadas depois, em meio às montanhas e vilas históricas do nordeste português, a estereotipação ainda afeta a vida de muitas mulheres brasileiras.

Presentes em número significativo na região, elas frequentemente enfrentam preconceitos arraigados que limitam sua integração social e profissional.

O Lance D’elas conversou com algumas brasileiras que vivem em Trás-os-Montes para compreender como é, atualmente, a vida delas na região.

Imigrante relata experiências de racismo, assédio e preconceito em Trás-os-Montes

Anitadiogodias – Own work, CC BY-SA 4.0,

Rebordelo,Portugal-Quando chegou a Trás-os-Montes, em 2023, a brasileira Cris acreditava que encontraria um novo começo. Vinha de uma história de violência e buscava segurança e estabilidade em Portugal. Mas logo percebeu que o país que parecia acolhedor também podia ser hostil  especialmente para uma mulher negra e imigrante.

“Bastava eu entrar em qualquer café ou restaurante e todos olhavam. Eu não sabia se era por ser mulher, negra ou imigrante. Me sentia vulnerável”, conta.

Nos primeiros meses, Cris se viu alvo de olhares insistentes, comentários ofensivos e assédio velado. A sensação, diz ela, era de estar constantemente sendo julgada e observada.

“Como mulher imigrante negra, eu sentia medo. Às vezes preferia ficar em casa”, afirma.

“Tem algo escrito na minha cara: imigrante”

Segundo Cris, a discriminação vinha em várias camadas. Por ser brasileira, negra e mulher, ela se tornou alvo fácil de estereótipos e preconceitos.

“Toda brasileira precisa provar que não está envolvida com prostituição. Basta abrir a boca que já julgam. É como se estivesse escrito na minha cara: imigrante”, relata.

Além da xenofobia, ela percebeu atitudes racistas no convívio diário e no ambiente de trabalho. “Há muita exploração. O assédio vem tanto por eu ser negra quanto por ser estrangeira”, afirma.

Calúnia e assédio

A situação se agravou quando o dono de um café da aldeia espalhou o boato de que a casa onde ela morava era “a casa das brasileiras”, uma insinuação de prostituição. O comentário provocou consequências graves.

“Um homem bêbado apareceu na minha porta às três da tarde, dizendo que estava procurando os ‘serviços’ das brasileiras. Foi horrível. Eu nunca tinha sentido tanto medo.”

Dias depois, o senhorio da casa também tentou se aproximar dela de forma indevida, chegando embriagado à sua porta durante a madrugada.

“Eu fiquei apavorada. Parei de falar com ele e passei a tratar tudo com a esposa dele. Mas cada vez que o via, atravessava a rua de nojo”, diz.

Cris registrou queixa na GNR (Guarda Nacional Republicana) por calúnia e difamação, mas não acredita que o caso vá ter desfecho. “Só queria que ele levasse um susto, entendesse o mal que causou. Mas, no fim, quem teve que sair fui eu”, lamenta.

O peso do estigma

Depois do episódio, a brasileira deixou a aldeia onde viveu por quase dois anos. O medo e a vergonha se somaram à sensação de isolamento. “Todos sabiam da história e comentavam. Eu estava sozinha e vulnerável. Decidi ir embora.”

Mesmo com o trauma, Cris não se vê como vítima passiva. “Eu sou empoderada, mas não ia continuar num lugar que me causava medo e repulsa. Às vezes, a melhor forma de se proteger é se afastar”, afirma.

Hoje, em outra região de Portugal, ela tenta reconstruir a vida. Mas a experiência a deixou marcada.

“Ser mulher, negra e brasileira aqui é viver sob desconfiança. As pessoas acham que saímos do nosso país por qualquer coisa. Mas eu vim buscar dignidade. Só quero respeito.”

Mulheres Brasileiras em Portugal: Entre Xenofobia e Resistência

Bragança, Portugal – Uma empresária brasileira, que prefere manter sua identidade protegida, relatou os desafios que enfrentou em seu estabelecimento e na vida cotidiana.

Ao abrir seu estabelecimento, ela se deparou com assédio e desrespeito. “Tinha pessoas que faziam brincadeiras de mau gosto, tentavam constranger clientes ou até minha família. Tive que agir para proteger meu restaurante e meus funcionários”, contou.

“Alguns homens acreditavam que poderiam se aproximar, invadir o espaço ou desrespeitar limites. Foi preciso coragem para barrá-los.”

Em Portugal, a xenofobia não é considerada crime, e o mesmo acontece com o racismo. Denunciar essas situações muitas vezes não faz sentido, porque as consequências podem recair sobre quem denuncia.

No meu antigo trabalho, fui assediada por um patrão sem escrúpulos. Eu tinha medo de ir trabalhar, rezava para que tudo corresse bem e que a patroa estivesse na cozinha quando eu chegasse. Eu era a primeira a chegar, para preparar o jantar, e temia encontrar aquele homem por perto. Onde quer que eu estivesse, ele tentava se aproximar de maneira imprópria. Era uma situação nojenta e humilhante.” Eu não sabia o que fazer. Durante mais de três anos de trabalho, nunca pedi demissão por impulso, mas quando finalmente saí, foi porque percebi que aquela era a decisão certa para proteger minha integridade.

Na época, as pessoas diziam que eu era a culpada: “Você que se coloca para ele, você que é brasileira…” Mas eu sabia que não havia errado. Fiz o que achei correto, mesmo que tenha sido difícil. Saí deixando a situação organizada para eles, no início do verão, alertando-os sobre os funcionários e procedimentos.

Quando cheguei a Portugal, ainda não havia acontecido o caso das Mães de Bragança. O incidente se deu algum tempo depois da minha.Cheguei ao país em setembro de 2002, e o caso explodiu no ano seguinte, o que piorou muito a minha vida.

O Caso das Mães de Bragança

Time

O chamado caso das Mães de Bragança, que envolveu exploração de mulheres em casas de alterne. Muitas brasileiras foram enganadas, chegando a Portugal acreditando que teriam empregos legítimos, mas acabaram presas em uma rede de exploração.

“Muitas tiveram passaportes retidos, foram obrigadas a pagar valores exorbitantes e sofreram maus-tratos.”

A empresária detalha que o foco da mídia e das autoridades recaía quase exclusivamente sobre as brasileiras, enquanto o tráfico de pessoas e o papel dos donos dos estabelecimentos eram minimizados. “Havia portuguesas, romenas, todas exploradas, mas as reportagens só apontavam para as brasileiras”, afirmou.

Aquela história daquela novela, Salve Jorge… Sim, eu pensei: essa novela deveria se passar em Portugal, e não na Turquia. Mas aquilo… a Turquia foi usada apenas como um cenário fictício. Imagina, Portugal nem aceitaria, do jeito que estava. Estava mais sujo do que pau de galinheiro, né? Então, a Turquia foi só um nome, um país escolhido para contar aquela história.

E é curioso que ele não foi julgado por obrigar aquelas meninas, porque, se tivesse sido, teria sido por tráfico humano.E foi considerado tráfico humano?Não, ele acabou sendo julgado apenas por auxílio à prostituição, de forma ilegal, um processo que não tinha muita relação com o que realmente ocorreu. Por tráfico humano, não foi responsabilizado, porque as mulheres foram traficadas pela rede. Era, de fato, uma rede de tráfico humano.

Ele pegou sete anos de prisão. Alguns outros envolvidos pegaram nove anos, outros sete. Não correspondeu à gravidade do crime. E nem foi apenas um crime isolado; se analisarmos, envolveu vários delitos agrupados.

Apesar das adversidades, a empresária reforça a resiliência das brasileiras em Portugal. “Nós trabalhamos, estudamos, formamos famílias e contribuímos para a sociedade. Mas ainda enfrentamos preconceito e assédio em qualquer espaço público ou de trabalho”, afirmou.

Ela enfatizou que a luta não é apenas contra homens abusivos, mas também contra mulheres e instituições que reproduzem discriminação. “Muitas portuguesas, às vezes, impedem brasileiras de ocupar posições, mesmo quando são qualificadas”, disse.

A empresária acredita que políticas públicas, leis de proteção e conscientização social são essenciais para combater a xenofobia, assédio e exploração de migrantes.

O relato evidencia que a xenofobia e o preconceito ainda persistem, mesmo décadas depois da chegada das primeiras brasileiras à região. “Não somos apenas mulheres, somos seres humanos, inteligentes e corajosas. Ainda assim, muitos nos tratam com desrespeito”, afirmou.

Ela defende mudanças estruturais: políticas públicas que protejam trabalhadores estrangeiros, leis que punam a xenofobia e programas de integração social. “Se houvesse legislação efetiva, as pessoas não se sentiriam à vontade para discriminar. Isso é uma violação de direitos humanos”, disse.

A empresária conclui com um apelo à conscientização e respeito: “A luta continua. Precisamos garantir que futuras gerações não sofram com assédio, preconceito e exploração. Mulheres brasileiras merecem ser reconhecidas pelo que são e pelo que contribuem.”

Deixe um comentário

Tendência