Há campeonatos que crescem em silêncio até deixarem de poder ser ignorados. A Liga MX Feminina parece estar a atravessar precisamente essa fase. Criada em 2017, a competição mexicana está a construir uma identidade própria, a valorizar as suas principais figuras e a atrair futebolistas com experiência nas grandes ligas europeias.



O mais interessante é que esta evolução já não se mede apenas dentro dos estádios: também se reflecte nas transferências, nos prémios internacionais e na capacidade de colocar o México no centro da conversa sobre o futebol feminino.

A última temporada deixou sinais difíceis de desvalorizar. Lizbeth Jacqueline Ovalle, conhecida como La Maga, protagonizou uma transferência histórica em Agosto de 2025, quando trocou o Tigres pelo Orlando Pride por 1,5 milhões de dólares, aproximadamente 1,3 milhões de euros. Um negócio que colocou a internacional mexicana no topo das transferências mais caras da modalidade, confirmando que o talento formado e valorizado no México pode atingir uma cotação de dimensão mundial.

Mas Ovalle não foi o único rosto desta afirmação.

Um ano se passou e na cerimónia da Bola de Ouro 2026, em Londres, duas mexicanas deram visibilidade internacional ao trabalho desenvolvido no país. Charlyn Corral, avançada do Pachuca, conquistou o Troféu Gerd Müller, destinado a distinguir a melhor marcadora, depois de uma época extraordinária, 50 golos em 49 jogos, contabilizando os compromissos por clubes e selecção. Scarlett Camberos, futebolista do América, também marcou presença na corrida individual mais mediática do futebol mundial, terminando no 21.º lugar da classificação da Bola de Ouro.

Duas trajectórias diferentes, unidas pela mesma mensagem: o México já produz protagonistas capazes de entrar na elite internacional.

O fenómeno ganha outra dimensão quando se observa a composição da própria liga. Jenni Hermoso, Sandra Paños, Lucía García, Bruna Vilamala, Lindsey Thomas, Aurélie Kaci, Irene Guerrero e Geyse estão entre os nomes que passaram ou permanecem no campeonato mexicano, contribuindo para elevar a experiência competitiva e a visibilidade da prova. A chegada de futebolistas com percursos relevantes na Europa não representa apenas uma colecção de nomes conhecidos; ajuda a criar um ambiente mais exigente, aumenta a exposição das equipas e pode acelerar o desenvolvimento das jogadoras locais.

Foto: Julio Cesar AGUILAR / AFP via Getty Images



Até o interesse internacional pelo futebol disputado no país tem antecedentes claros. O Barcelona escolheu o México para realizar estágios de pré-temporada em diferentes ocasiões e disputou ali jogos que levaram milhares de adeptos às bancadas. É um indicador da capacidade de mobilização que existe em torno da modalidade, embora a consolidação desse interesse dependa também da regularidade das competições, do investimento e da sustentabilidade dos projectos.

Foto: FC Barcelona (Barcelona esteve em Tour de pré época 23/24)
Foto: FC Barcelona ( Barcelona na pré época de 25/26 no troféu Duelo de Estrellas frente à LigaMX All Star)



É precisamente aqui que a Liga MX Feminina se torna interessante para além da discussão desportiva. Uma competição com figuras reconhecidas, resultados expressivos, transferências relevantes e uma audiência em crescimento oferece novas possibilidades de análise.

Em menos de dez anos, o futebol feminino mexicano passou de projecto em construção a uma realidade com presença internacional. Ovalle, Corral e Camberos são rostos diferentes dessa mudança. O desafio agora é transformar os momentos de destaque numa evolução duradoura.

Porque o México já não quer apenas participar no crescimento do futebol feminino…quer ter um papel central nele.

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