O silêncio que hoje se abate sobre o Bessa tem o peso de uma sentença sem apelo. Às 15:30 desta quarta-feira, 15 de julho, o futebol português acordou para o abismo o Boavista Futebol Clube, emblema centenário e quarto maior colosso do país, encerrou oficialmente a sua atividade.

Não foi um remate certeiro que ditou o fim, mas uma agonia lenta, selada pela mão fria da administradora de insolvência, Maria Clarisse Barros, que confirmou o incumprimento dos encargos correntes. A conta ficou a zero, o donativo salvador nunca chegou e, com ele, dissolveu-se o fôlego de uma instituição que já foi campeã nacional, ergueu cinco Taças de Portugal e marcou o mapa da Europa.
É difícil encontrar palavras que não soem a elegia num dia de amputação coletiva. O Boavista não morre por falta de adeptos ou de história, mas pela desgovernação de quem, com as chaves do cofre e o destino do emblema nas mãos, permitiu que a ganância fosse mais rápida que a paixão, e usou o clube para tudo menos para aquilo que devia. É um paradoxo cruel: o clube que celebrou 25 anos sobre a glória do seu título de campeão acaba os seus dias entregue ao silêncio dos corredores vazios, com as chaves a terem de ser devolvidas até ao último dia do mês.
Nas bancadas e nas memórias, o sentimento é de uma traição que ultrapassa o desporto. Houve quem prometesse o céu, enquanto, na sombra, se comprometia o futuro com promessas ocas. O Bessa, já tantas vezes fustigado por crises e leilões, torna-se agora um mausoléu. A administradora de insolvência, num último gesto de formalidade fria, agradeceu aos técnicos e atletas que ainda mantiveram o nome da pantera erguido, mas a realidade é crua as luzes apagaram-se.
Não se trata apenas de fechar um estádio é a erosão da identidade de milhares de famílias. O desporto português é hoje mais pobre, menos plural e, acima de tudo, menos justo. Mais se 400 atletas de diferentes modalidades ficam agora sem clube.
Pode retirar-se o Boavista das tabelas classificativas, dos calendários e das competições, mas apagar a marca que deixou em gerações de adeptos é uma tarefa impossível. O Xadrez, embora despojado da sua atividade, sobrevive enquanto ecoar, nas ruas do Porto e na memória dos seus fiéis, o orgulho de quem nunca precisou de vitórias fáceis para saber o que é a grandeza.
A história não se apaga com uma assinatura num documento de insolvência ela permanece, teimosa, no coração daqueles para quem ser Boavista nunca foi um título, mas a única forma de estar na vida.






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