A história do futebol feminino em Espanha não se pode escrever sem um antes e um depois do seu nome. Verónica Boquete (Santiago de Compostela, 1987) representa a personificação da resistência, do talento e da transformação cultural de um desporto que, quando ela começou, nem sequer permitia a profissionalização das mulheres.

Foto: Vero Boquete e Como via Instagram

Primeira espanhola a ganhar a Champions League, capitã histórica da Seleção e voz inabalável fora dos relvados, Vero não só fintou adversárias nas melhores ligas do mundo, desde os Estados Unidos à Alemanha, passando pela Suécia e Itália, mas também derrubou os muros institucionais que asfixiavam o crescimento de gerações inteiras.

Hoje, convertida num símbolo eterno cujo nome dá vida ao estádio da sua cidade natal, revê nesta entrevista uma trajetória que mistura a genialidade com a teimosia, o sucesso internacional com o custo pessoal da luta, e o mapa de um caminho que abriu a golpe de coragem para que as meninas do presente joguem num mundo que ela teve de imaginar a partir do nada.

As Origens e a Teimosia de um Sonho Anónimo

Toda a grande história tem um ponto de partida humilde, muitas vezes invisível aos olhos do mundo. Para compreender a magnitude do que Verónica Boquete alcançaria anos mais tarde, é imprescindível regressar àquelas ruas galegas onde o futebol não era uma indústria, nem um plano de carreira, mas sim a pura expressão da liberdade de uma criança.

Quando eras apenas uma menina em Santiago de Compostela e jogavas na equipa do bairro, o futebol já era uma carreira em que pensavas? Qual é a recordação mais viva que tens desse tempo em que o “sonho” era, na verdade, algo que ainda não tinha nome nem visibilidade?

A realidade é que, quando era uma menina, não sonhava ser jogadora de futebol profissional porque essa possibilidade simplesmente não existia no meu meio. Eu sonhava jogar futebol, que era o que me fazia feliz. A minha recordação mais viva é a de passar horas e horas na rua ou no campo, a jogar com os meus amigos, sem pensar muito no futuro. Fazia-o porque adorava competir, melhorar e estar perto da bola. Naquela época não havia referências femininas visíveis nem um rumo claro a seguir. O sonho não tinha nome, mas a paixão já estava lá.

Contudo, a paixão por si só raramente é suficiente quando as estruturas sociais e desportivas caminham no sentido oposto. Nesse cenário, o ambiente mais próximo torna-se o único refúgio capaz de sustentar uma vocação que a sociedade da época olhava com ceticismo.

A tua família apoiou-te sempre quando disseste que querias ser jogadora profissional e que esse seria o teu futuro?

A minha família sempre me apoiou na minha paixão pelo futebol. Evidentemente, quando era jovem também existia uma certa preocupação porque sabiam que era muito difícil viver deste desporto sendo mulher. Mas nunca tentaram afastar-me desse caminho. Pelo contrário, acompanharam-me em cada etapa, nos momentos bons e nos mais complicados. Sem esse apoio teria sido impossível percorrer todo este caminho.

Muitas vezes fala-se da técnica, mas o que é que a Verónica tem que a distinguia mentalmente das outras jogadoras da sua geração? Que “teimosia” foi necessária para acreditar que o futebol te levaria a cenários que ainda não existiam para as mulheres em Espanha?

Acho que sempre tive uma enorme capacidade para imaginar possibilidades onde os outros viam limites. Quando muita gente pensava que certas coisas eram impossíveis, eu perguntava-me por que não podiam ser possíveis. Essa teimosia foi fundamental. Não aceitava um “sempre foi assim” como argumento. No futebol e na vida tenho tentado desafiar as barreiras que pareciam normais. Talvez a diferença tenha estado aí: em acreditar que o futuro podia ser diferente, embora ainda não houvesse exemplos que o demonstrassem.

A Forja da Líder e a Conquista do Mundo

Para moldear o caráter de uma capitã que marcaria uma época, foi necessária uma viagem de maturidade que obrigou Verónica a olhar para lá das suas próprias fronteiras. A busca pela excelência levou-a a tornar-se uma autêntica trotamundos da bola, absorvendo identidades futebolísticas diversas e forjando uma personalidade multifacetada.

Quem é a Verónica fora do terreno de jogo? Que elementos da tua personalidade moldaram a capitã que terminaria a liderar tantas batalhas anos mais tarde?

Sou una pessoa curiosa, muito observadora e bastante inconformista. Sempre gostei de entender por que acontecem as coisas e como podem ser melhoradas. Essa forma de ser acompanhou-me dentro do balneário. Nunca entendi a liderança como uma questão de dar ordens, mas sim de assumir responsabilidades e defender aquilo que considerava justo. A minha personalidade levou-me a tentar deixar o futebol um pouco melhor do que como o encontrei.

Foto: Vero Boquete via Instagram

A tua passagem pelos Estados Unidos, Suécia e Alemanha deu-te uma visão holística do futebol. O que te foram transmitindo essas ligas a nível de aprendizagem e desafio? Qual foi a lição mais dura que aprendeste a jogar fora do teu país?

Cada país ensinou-me algo diferente. Os Estados Unidos mostraram-se uma estrutura profissional muito avançada e uma cultura desportiva extraordinária. A Suécia ensinou-me disciplina tática e organização. A Alemanha permitiu-me competir ao máximo nível europeu e entender o que significa conviver com a exigência diária de um grande clube.

A lição mais dura foi aprender a sair constantemente da minha zona de conforto. Chegar sozinha a outro país, a outro idioma e a outra cultura obriga-te a reinventar-te. Profissionalmente torna-te melhor jogadora, mas também te faz crescer muitíssimo como pessoa.

Ganhar a Champions League em 2015 com o Frankfurt foi um momento histórico por seres la primeira espanhola a erguer o troféu. No aspeto pessoal, que peso teve esse título?

Foi um dos momentos mais especiais da minha carreira. Não só por ganhar a competição mais importante a nível de clubes, mas porque representava anos de esforço, sacrifício e decisões difíceis. Também senti que tinha um significado mais amplo. Não era unicamente uma conquista pessoal; demonstrava que uma futebolista espanhola podia alcançar o topo do futebol europeu.

Foto: Vero Boquete via Instagram

O Ativismo e a Revolução das Consciências

O impacto de Vero Boquete não pode ser medido unicamente em golos, títulos ou minutos jogados. A sua verdadeira dimensão como figura pública consolidou-se quando decidiu utilizar o seu altifalante para exigir espaços de visibilidade que até então estavam vedados às mulheres, transformando a cultura popular desde a raiz.

A tua iniciativa no Change.org para incluir as mulheres no FIFA da EA Sports foi um marco de influência cultural. Deste-te conta nesse momento de que estavas a mudar a perceção pública do futebol feminino tanto quanto estavas a mudar a gestão desportiva? Como surgiu na tua cabeça esta iniciativa?

Naquele momento não pensei em termos tão grandes. O que via era uma ausência evidente. Milhões de pessoas jogavam o FIFA e o futebol feminino não existia dentro de um dos produtos culturais mais influentes do desporto. Parecia uma contradição enorme.

A iniciativa surgiu de uma conversa muito simples: se queremos que as meninas se possam ver refletidas em todos os espaços do futebol, também têm de existir nos videojogos. Com o tempo entendi que aquilo tinha uma dimensão simbólica muito importante. Desporto não se tratava apenas de aparecer num jogo, mas sim de ser visível para toda uma geração.

Foto: Getty Images

Verónica, foste a capitã e a grande referência da seleção espanhola numa era de mudança histórica. Quando olhas para trás e assumes o teu papel como pioneira, qual destas duas qualificações teve o maior impacto emocional para ti e como vês o crescimento da seleção desde o momento em que deixaste a braçadeira?

As duas foram muito especiais, mas provavelmente a qualificação para o Mundial de 2015 teve um impacto emocional ligeiramente maior porque representava algo completamente novo para o futebol feminino espanhol. Era uma barreira histórica que nunca se tinha superado.

Quando vejo o crescimento posterior, sinto orgulho. A seleção alcançou níveis que durante muitos anos pareciam muito distantes. O mais importante é que hoje as meninas espanholas crescem a ver referências, títulos e uma normalidade que a minha geração não teve.

Foto: Vero Boquete via Instagram (Torneio no Algarve)

As Batalhas do Sistema e as Fendas do Caminho

O progresso, infelizmente, nunca é linear. Por trás dos grandes avanços da Seleção Espanhola esconde-se uma cronologia de tensões, de fazer frente à injustiça e de assumir custos individuais muito elevados em prol do bem-estar coletivo. Verónica assumiu a braçadeira com todas as suas consequências.

O teu papel na saída de Ignacio Quereda em 2015 foi um ponto de viragem. Como foi o processo de transição entre ser a “jogadora que só quer jogar” e a “capitã que tem de confrontar um sistema”?

Não foi uma transição procurada. Eu sempre quis focar-me em jogar futebol. Mas chega um momento em que entendes que o silêncio também é uma decisão. Como capitã tinha uma responsabilidade com as minhas companheiras e com as gerações futuras. Foi uma situação difícil porque implicava assumir riscos pessoais e profissionais, mas acreditei que era o correto.

Existe uma narrativa, às vezes injusta, de que a luta de “las 15” em 2022 surgiu do nada. Como alguém que viveu o “pré-2022”, como descreves a evolução da consciência coletiva das jogadoras espanholas? O que mudou na capacidade de organização entre a tua geração e a geração atual?

Nada surge do nada. As mudanças costumam ser o resultado de muitos processos acumulados durante anos. A minha geração abriu determinadas conversas e assumiu certos custos. As gerações posteriores encontraram um contexto diferente e puderam dar novos passos.

O que mudou foi a força coletiva. Hoje as futebolistas contam com mais ferramentas, mais informação, mais visibilidade e uma maior consciência dos seus direitos. Isso permite-lhes organizarem-se de uma maneira muito mais sólida.

Foto: Vero Boquete via Instagram

Tu não foste uma de “las 15”, mas foste uma voz constante de apoio. Como gestionas a sensação de ter estado na linha da frente de uma guerra que ainda hoje, em certos aspetos, parece não ter terminado de todo?

Vejo isso com perspetiva. As mudanças culturais profundas nunca acontecem de um dia para o outro. Há avanços, retrocessos e novas batalhas. Sinto-me satisfeita por ter contribuído para empurrar numa direção positiva, mas também sou consciente de que ainda resta trabalho por fazer. Faz parte de qualquer processo de transformação.

A tua ausência na seleção em 2017 foi um momento polémico. Como processaste, a nível pessoal e profissional, o facto de seres, possivelmente, a melhor jogadora do país e, ao mesmo tempo, estares fora dos planos da seleção?

Foi uma situação dolorosa porque representar o teu país é sempre um privilégio enorme. No entanto, tentei geri-la com profissionalismo. Continuei a focar-me no meu trabalho diário e em render ao máximo no meu clube. Aprendi que nem sempre podes controlar as decisões externas, mas sim como respondes a elas.

Foto: Vero Boquete via Instagram

Presente, Futuro e a Eternidade de um Nome

Com o passar do tempo, as prioridades do futebol feminino espanhol mudaram: passou-se de exigir a dignidade mínima a debater sobre a excelência estrutural. Nesta etapa de maturidade, Verónica continua a aportar a sua experiência nos relvados italianos enquanto contempla como o seu legado se tornou eterno nas ruas de Santiago.

Existe uma diferença clara entre a “luta por umas condições” que livrou a tua geração e a “lucha por la igualdad de élite” que vive a geração atual. Sob o teu ponto de vista, qual é o maior desafio que enfrenta o futebol feminino espanhol agora que já tem a visibilidade e o sucesso que lhe faltavam?

O grande desafio é consolidar tudo o que foi alcançado. Alcançar o sucesso é difícil, mas sustentá-lo no tempo é ainda mais. É necessário fortalecer as estruturas, melhorar a formação, profissionalizar cada vez mais os clubes e garantir que o crescimento chegue a todas as categorias. A igualdade não consiste apenas em alcançar o topo, mas sim em construir uma base sólida e sustentável.

O Estádio Verónica Boquete de San Lázaro é um símbolo perpétuo na tua cidade. O que diz essa homenagem sobre ti e como foi saberes que isso ia acontecer?

Foi uma das maiores emoções da minha vida. Nunca imaginei que um estádio pudesse levar o meu nome. Mais do que o reconhecimento pessoal, interpretei-o como uma mensagem muito poderosa sobre o lugar que as mulheres podem ocupar no desporto. Que uma menina passe por ali e veja aquele nome, de mulher, tem um valor enorme.

Foto: Estadio Vero Boquete de San Lázaro, Santiago de Compostela, Galicia.

A jogar atualmente no [Como 1907], que projeto é este que demonstra querer ir com tudo no futebol feminino? O que desejas alcançar ainda com este clube?

É um projeto com ambição, com uma visão clara e com vontade de continuar a crescer. O que mais valorizo é o compromisso em construir algo sólido a longo prazo. A nível pessoal continuo a ter a mesma motivação de sempre: competir ao mais alto nível, ajudar a equipa a alcançar os seus objetivos e continuar a desfrutar do futebol enquanto puder dar o meu contributo dentro do campo.

Foto: Vero Boquete via Instagram

Se pudesses sentar-te com a Verónica de 2005 e dar-lhe um único conselho sobre o que está para vir na sua carreira e na história do futebol espanhol, o que lhe dirias?

Diria-lhe para ter paciência. Que muitas das coisas pelas quais vai lutar tardarão mais tempo do que imagina em chegar, mas que valerá a pena. E que não deixe de acreditar naquilo que parece impossível, porque algumas dessas impossibilidades acabarão por se transformar em realidade.

Quando um dia decidires arrumar as botas, como esperas que as pessoas te recordem neste meio e neste desporto?

Gostaria que me recordassem como uma pessoa que tentou melhorar o futebol dentro e fora do campo. Evidentemente espero que valorizem a minha carreira desportiva, mas se algo me fizesse especialmente feliz seria que se dissesse que ajudei a abrir portas para quem veio depois. Esse seria, provavelmente, o legado mais importante.

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