A noite em Toronto foi muito mais do que um jogo de futebol foi um exercício de memória e um teste de nervos que, por pouco, não terminou em tragédia desportiva.
Sob o peso emocional do primeiro aniversário da partida de Diogo Jota o homem que, ironicamente, fez o seu último golo frente á Croácia, o ambiente vibrava com uma carga quase cinematográfica. No fim do jogo Ronaldo vestiu a camisola com o número 21 para homenagear o colega.
O destino quis que, nesta madrugada de 3 de julho, o último grande encontro de Cristiano Ronaldo e Luka Modrić, ambos bolas de ouro e que muito conquistaram juntos no Real Madrid ,se cruzasse num duelo de titãs.

Roberto Martínez agitou o xadrez ao lançar Rafael Leão e João Neves, apostando num primeiro tempo de domínio absoluto. Com 69% de posse, Portugal sufocou os croatas, mas a eficácia, velha inimiga, falhou. O descanso chegou com um nulo que não espelhava a superioridade lusa.

O segundo tempo trouxe uma Croácia transfigurada. A apatia defensiva aos 53 minutos permitiu a Perišić receber e dominar a bola para apontar o golo que gelou o estádio.O empate luso veio gélido na sequência de um penálti após falta sobre Renato Veiga, onde Ronaldo na marca dos onze metros não falhou e devolveu a esperança. Mas foi Diogo Costa quem garantiu a sobrevivência com defesas de outro mundo, uma atrás das outras que transformou o jogador do Porto novamente numa muralha.
Quando o desespero se instalava, o milagre surgiu aos 90+4, cruzamento bem colocado se Rafael Leão e cabeça certeira de Gonçalo Ramos a carimbar a vitória portuguesa.

Contudo, o drama estava longe de terminar. Num final de contornos surreais, o árbitro esticou o tempo de compensação para lá dos 10 minutos inicialmente previstos. Já aos 113 minutos, num ápice de desordem, a Croácia chegou a festejar o empate, mas a bandeirola pela terceira vez na noite ditou mais um fora de jogo para lá croatas. Justiça poética num relvado que parecia não querer deixar o jogo terminar.
Portugal exibiu um futebol ofensivo vibrante, mas revelou uma fragilidade preocupante na transição defensiva e uma incapacidade crónica de “matar” o jogo. A dependência excessiva das luvas de Diogo Costa expõe um desequilíbrio que pode ser fatal. A Croácia, por sua vez, provou ser uma equipa de sangue frio, gerindo o esforço de Modrić com uma maturidade competitiva que, por um triz, não silenciou o sonho português.
Resta agora o duelo ibérico com a Espanha que certamente virá em busca da desforra da Liga das Nações perdida o ano passado.
Se a equipa das quinas quiser sonhar alto, terá de aprender que, neste patamar, não basta jogar bem é imperativo não oferecer ao destino aquilo que o futebol, por norma, não perdoa. O bilhete para os oitavos está carimbado, mas o susto de Toronto fica para a história como um aviso severo.





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