Diz-se que o futebol moderno perdeu o romantismo, que o dinheiro esmagou a paixão e que os pequenos já entram em campo derrotados pelos cifrões e pela história. Depois, há madrugadas como a deste sábado. Madrugadas em que um pontinho conquistado com suor, sofrimento e o coração na boca num relvado norte-americano faz disparar o pulso de um arquipélago inteiro e obriga o mundo a parar para olhar.

Cabo Verde está nos 16 avos de final do Mundial. Escrever isto parece ficção. Quando o sorteio os atirou para o Grupo H, ao lado da sofisticação da Espanha e da raça bicampeã do Uruguai, a narrativa parecia fechada, seriam as vítimas perfeitas, os miúdos simpáticos que iam apenas usufruir da viagem que já tinha sido heróica ao tombar os Camarões na qualificação.
Mas a alma crioula não se verga a currículos.
Foi um caminho de nervos em franja. Três jogos, três empates. Primeiro, o nulo de betão frente à armada espanhola. Depois, aquele 2-2 frenético contra o Uruguai, onde o médio Kevin Pina testou as cordas vocais de toda uma nação ao assinar o primeiro golo cabo-verdiano de sempre na prova. Faltava o último passo contra a Arábia Saudita. E os Tubarões Azuis não geriram o pontinho, morderam as fustas do jogo, encurralaram os sauditas, trocaram os olhos aos teóricos e mandaram na bola.
Na baliza, Vozinha não foi só um guarda-redes, foi uma parede humana que agora carrega o carinho de milhões de novos adeptos pelo planeta fora.
O segundo lugar é deles. Segue-se a Argentina. Há quem tema o gigantismo do adversário, mas estes rapazes já perceberam que o impossível é apenas uma opinião. Venha quem vier, a imortalidade já ninguém lhes tira.






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