O 25 de Abril de 1974 foi o apito inicial para uma partida que as mulheres portuguesas estavam impedidas de jogar. Mais do que uma mudança de regime político, a Revolução dos Cravos foi o golpe de misericórdia num Portugal cinzento e patriarcal, onde o corpo feminino era propriedade do Estado e dos bons costumes.

Foto: Reprodução internet/ RTP Memória



Antes desta data, a mulher era uma figura secundária: legalmente dependente, com salários 40% inferiores aos dos homens e confinada a uma passividade social que asfixiava qualquer ambição atlética.

No desporto, o cenário era de exclusão. O futebol, em particular, era visto como um reduto de virilidade, interdito a quem não se enquadrasse no papel de “fada do lar”. Praticar desporto era, para a mulher, um ato de quase clandestinidade.

Com a queda da ditadura, as barreiras mentais começaram a ruir. A liberdade de associação permitiu que, logo na segunda metade da década de 70, surgissem os primeiros núcleos organizados de futebol feminino. As mulheres deixaram de pedir licença para correr. A democratização trouxe a consciência de que o desporto é um direito de cidadania e não um privilégio de género.

Foi este solo fértil de liberdade que permitiu a transição lenta, mas imparável, do amadorismo resiliente dos anos 80 para a estrutura profissional que hoje admiramos. Se hoje vemos o Estádio da Luz ou o Dragão a vibrar com equipas femininas, é porque Abril abriu as portas dos balneários e das instituições.

Atualmente, o impacto é visível na representatividade. Portugal deixou de ser o país onde as atletas precisavam de autorização do marido para viajar, para ser a nação que celebra as suas “Navegadoras” em palcos mundiais. A presença da seleção nacional no Mundial de 2023, assim como sermos vice campeãs do primeiro mundial feminino de futsal do mundo, ou irmos a palcos internacionais no basquetebol, andebol e outros desportos é o triunfo tardio, mas justo, da revolução de 74.

Hoje, celebrar o 25 de Abril através do desporto seja na “Estafeta dos Cravos” ou na formação de jovens jogadoras/desportistas é recordar que a democracia se joga todos os dias!

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