Nasceu no Brasil, o país onde o futebol é mais do que um jogo ,é cultura, é emoção, é identidade. Foi lá que Samara aprendeu a sonhar com uma bola nos pés e descobriu que o futebol seria o seu destino. Hoje, cumpre esse sonho em grande: representa o Sporting CP e a Seleção Nacional Portuguesa.

A sua jornada é marcada por coragem e determinação. Começou nos Estados Unidos, seguiu para a Islândia e, em 2021, chegou a Portugal para alinhar pelo Clube de Albergaria. Não era terra estranha, Portugal corre-lhe no sangue, faz parte da sua história e das suas raízes. Após duas temporadas, rumou a Torres Vedras para defender o Torrense, onde brilhou e ajudou a conquistar um dos troféus mais desejados do futebol português: a Taça de Portugal.
Neste verão, deu um novo passo e mudou-se para a capital, para integrar o plantel leonino. Uma nova etapa, novos desafios, o mesmo amor pelo jogo.
Numa conversa sincera, Samara Lino fala sobre a adaptação ao Sporting, relembra o caminho que a trouxe até aqui, desde os primeiros sonhos no Brasil, às experiências nos Estados Unidos e na Islândia, até ao momento em que Portugal se tornou casa. Partilha as alegrias das vitórias inesperadas, o orgulho de representar a seleção e também os dias mais duros, quando por um instante o pensamento de desistir quase se impôs. Uma história de paixão verdadeira pelo futebol.
Como esta a ser a adaptação no Sporting?
Eu acho que tem sido muito boa a adaptação, estou a gostar, ainda me acostumando com o estilo de jogo e o ambiente e tudo que é bem diferente, mas estou a gostar bastante.
Como foi a ida para o Sporting? Quando recebeste o convite estavas á espera da proposta? Demorou muito a aceitar?
Não, eu não estava á espera, mas eu fiquei muito feliz, pensei bastante, porque obviamente eu estava a ter uma grande época no Torreense, e eu gostava muito de estar lá, das pessoas e de tudo, sempre foi um sonho poder jogar no Sporting, então foi mais por isso que eu não pude recusar.
Tens família portuguesa, algum deles é sportinguista?
Sim, eu tenho um primo que é sportinguista tipo doente e assim que eu achei em Portugal ele me falou a história do Sporting e queria que eu fosse aos jogos.
E o que esperas desta época com a camisola do Sporting?
Eu espero evoluir bastante, apesar de sentir que já estou a evoluir e espero poder ajudar a equipa a ganhar títulos, acho que é esse o principal objetivo, conseguirmos ser campeãs nacionais. Espero conseguir ajudar o máximo possível.

Recentemente, embora o bom arranque na Liga BPI, tiveram de digerir uma eliminação frente á Roma quando já tinham ali um pé na Liga dos Campeões. Toda essa frustração dá-vos agora mais motivação para jogar a nova competição da UEFA?
Sim, eu acho que sim, a gente já conseguiu refletir e aprender com os jogos contra a Roma, foi um desafio, e eu acho que agora estamos focadas em conseguir ir o mais longe possível na Liga Europa, conseguir ir bem nestes próximos jogos.
O que achas que falhou no momento em que estavam em vantagem na eliminatória para não ser possível manter?
Nesse jogo eu ainda estava a voltar de lesão, então não estava tao próxima nos treinos, acho que a preparação foi boa, mas o jogo no futebol é complicado as vezes, estamos bem, sentimo-nos preparadas, mas as coisas não correm como planejado, e eu acho que foi isso que aconteceu, a preparação foi ótima, mas na hora do jogo as coisas correram melhor para elas e acabaram escapando por pouco, por um golo.
Recuando agora um pouco atrás, lá ao início de todo, sempre sonhaste ser jogadora de futebol? Era um sonho que vinha de criança, ou com o tempo começaste a praticar e foste vendo que querias ser jogadora?
Ah, é uma boa pregunta, eu comecei a praticar quando tinha 7/8 anos mas acho que só aos 13/14 é que eu pensei, wow, se eu puder queria continuar jogando por mais tempo, só que não tinha tanto essa carreira de futebol profissional nem tinha muitas equipas no Brasil, mas eu sabia que eu queria ir o mais longe possível, e as coisas foram acontecendo, aquilo que era um sonho acabou virando realidade, não imaginava que realmente pudesse ser a minha profissão, e hoje em dia eu vivo disso e acho que é a melhor profusão que poderia ter.
E quando disseste á tua família que querias ser jogadora de futebol, apoiaram-te nessa decisão ou acharam que estavas a cometer uma pequena loucura?
Eu acho que algumas pessoas na minha família e amigos pensarem que eram um risco muito grande mas a minha mãe sempre me apoiou; sempre me ajudou; sempre me fez acreditar que era possível e eu acho que isso me ajudou muito, e eu segui o que ela pensava, sempre acreditei que era possível e acabou acontecendo.

Quando decides ir para os Estados Unidos, decides ir só para estudar ou também já ias com a intensão de ir para jogar?
Foi para fazer os dois ao mesmo tempo, porque os Estados Unidos têm as melhores condições para o futebol feminino, então partiu da ideia da minha mãe, o objetivo era eu conseguir uma bolsa e o futebol pagar os meus estudos. Mas o meu objetivo principal na verdade era o futebol e poder ter boas condições, no Brasil eu não tinha essas condições
Aceitas sair dos Estados Unidos e ir para a Islândia, na tua primeira experiência na Europa, que experiencias é que trazes do futebol islandês?
Eu acho que o futebol islandês era mais parecido com o futebol dos Estados Unidos, onde a parte física era mais importante que a parte técnica, elas focavam muito mais na parte de correr, na parte de explosivo e coisas desse género do que na parte técnica que é mais parecido com o futebol de Portugal e do Brasil.
A vida leva-te a passar por países diferentes e por outros clubes em Portugal (Clube de Albergaria e Torrense) antes de chegares á capital. Nesta viagem há algum momento que tenha sido muito duro onde tenhas pensado desistir do sonho que estavas a traçar?
Eu acho que houveram muitos momentos duros, eu acho que é normal na vida de uma atleta, tem sempre momentos bons e momentos maus, mas acho que pensar em desistir, acho que só aconteceu uma vez, quando eu estava nos Estados Unidos e as coisas estavam a correr muito mal. Mas também quando eu estava no Torrense teve um momento que foi muito, muito difícil, o Gonçalo, o treinador tinha acabado de chegar e não gostava muito de mim, e então eu também pensei, talvez não seja para mim, aqui não é o meu lugar , não estou num nível bom o suficiente para estar cá, e logo depois de 2/3 meses eu comecei a jogar e as coisas só melhoraram e foi o caminho para a minha melhor época de sempre, e eu acho que o futebol é mesmo assim, uma montanha russa, uma hora esta em baixo, outra hora estamos la em cima, temos de aprender a lidar com essas emoções.
Pegando nessa que dizes ser a tua melhor época, acaba com a consagração da Taça de Portugal, em algum momento vocês acreditavam que aquilo era possível ou essa ideia surge apenas quando marcam o golo já nos últimos segundos do jogo?
Nós acreditávamos que era possível desde o começo, mas sabíamos que ia ser muito difícil, mas o percurso de ganhar do SC Braga num agregado de 5-0, já nos deu uma motivação maior para chegar na final e acreditar que estava ao nosso alcance. E pronto 1-0 praticamente o jogo inteiro, aquele golo, acho que foi o momento mais emocionante na minha carreira, sem dúvida, e eu já estava no banco, mas mesmo assim, naquele momento, acho que nunca senti algo tão forte de ainda podemos conseguir, depois no 2º golo…vai ser difícil replicar esse sentimento na minha vida.
E que sabor têm uma vitoria destas em que entraram no jogo como uma equipa que não era a favorita a vencer?
Provavelmente é ainda melhor, porque acho que muitas pessoas acreditam que não é possível, aí você vai lá e mostra que sim é possível, com muito trabalho, com muita união, acreditar em nós mesmas.

Depois da conquista da Taça de Portugal segue-se também um dos possíveis momentos mais aguardados da tua carreira, a convocatória para a Seleção Nacional. Sendo os teus avós portugueses, e o facto de a vida te ter trazido para cá também, como é que foi o sentimento quando sabes que fazias parte das escolhas do mister Francisco Neto?
Não esperava, fiquei muito, muito feliz, fiquei emocionada, obviamente fui falar com os meus avós e com a família, todos ficaram muito felizes por mim, foi também um dos momentos mais especiais da minha carreira, num jeito de dizer “posso deixar de jogar”, o facto de ter sido chamada para a seleção e ter consigo chegar nesse ponto já me deixa muito feliz.
E nesse dia recordas-te de onde estavas e o que estavas a fazer?
Nesse dia eu estava a fazer os meus testes físicos no Sporting, e no momento da convocatória eu estava a fazer o isocinético e depois que eu acabei de fazer, peguei o telemóvel e tinha mais de 30 mensagens, e normalmente eu não tenho muitas no meu telemóvel, então falei “tem alguma coisa”, e quando eu vi que era a convocatória, eu realmente não esperava, já tinha estado nas listas outras vezes, mas nunca tinha sido chamada, então já estava um pouco sem esperança de isso acontecer. E quando aconteceu foi incrível.
Acabaste por não estar presente na convocatória final para o Europeu, mas viajaste com a equipa para a Suíça. Estando lá, mas mesmo do lado de fora, o que é que se aprende com essa experiência?
Eu e a Barbara, fomos como jogadoras extra, foi uma experiência muito boa, ir para um Europeu é sempre algo especial, mesmo não jogando, eu estava junto com a equipa, estava a treinar todos os dias, acho que foi uma boa experiência, infelizmente as coisas não correram como nós queríamos, mas acho que só de estar naquele ambiente e poder ver o dia a dia no europeu já foi uma experiência incrível.

E quem é a Samara fora das quatro linhas?
Acho que sou uma pessoa alegre, companheira e que realmente ama muito o futebol e estou sempre muito focada em cada dia ser melhor, mesmo que seja 1% melhor, eu acho que todos os dias me levanto pensando em evoluir.
Se tivesses de enviar uma carta à Samara de 13 anos que queria ser jogadora de futebol, o que lhe escrevias?
Eu escrevia para parar de se questionar e acreditar em mim mesma, porque eu acho que essa é a parte mais difícil, acreditar que eu sou capaz, ter a confiança, para mim é a parte mais difícil, o trabalho eu consigo fazer facilmente, agora a parte mental é a parte que têm de evoluir todos os dias.
Como descrevias o futebol na tua vida com apenas uma palavra?
Paixão
Como seria a tua jogadora perfeita?
Pé esquerdo: Barbara Lopes
Pé direito: Aitana Bonmati
Força: Brittany Raphino
Visão: Claúdia Neto
Finalização: Telma EncarnaçãoVelocidade: Caroline Graham Hanssen





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