Em semana de terceira etapa do Campeonato de Portugal de Ralis (CPR), as atenções centram-se no asfalto do Rali de Lisboa. Aproveitámos a ocasião para entrevistar o piloto da Marinha Grande, Rafael Cardeira, que renovou recentemente o seu vínculo com o Sporting CP. Numa conversa franca, passamos em revista o início da sua carreira, o peso da família, a transição de máquinas, a experiência única nos FIA Motorsport Games e as metas para o futuro. Venha conhecer melhor o piloto que leva as cores leoninas para os troços nacionais.

O automobilismo corre-lhe nas veias desde a infância. Natural de uma região com forte tradição no desporto motorizado, Rafael Cardeira explica como a transição dos relvados do futebol para as pistas de rali acabou por ser um passo natural, sempre com a família na linha da frente.
Como nasceu o seu interesse pelo automobilismo? O seu pai está ligado ao automobilismo, a paixão vem daí?
Eu sou de uma zona onde há uma paixão muito grande pelo desportivo automóvel, a Marinha Grande e Leiria em que os meus familiares sobretudo o meu pai sempre estive ligado ao desporto automóvel como piloto de kart, como co-piloto de rali, como organizador de eventos de clássicos como organizador de ralis também é membro do Clube Automóvel da Marinha Grande, portanto a minha infância foi vivida muito de perto com o desporto automóvel no seu todo, nas varias modalidades, foi isso que despertou a minha paixão, o acompanhar o meu pai e os seus amigos nasceu essa paixão , ao início não era compatível porque eu fui jogador de futebol durante vários anos, mas mais tarde abriu-se essa porta, fechou-se o ciclo do futebol e abriu-se o ciclo do desporto automóvel e dos ralis em particular.
E que papel desempenha a tua família no teu dia a dia nos ralis? O teu pai e a tua irmã estão quase sempre presentes quando há uma competição, é importante tê-los ao lado durante as provas?
Sim, toda a minha família marca presença em todas as provas, pode ter havido uma outra prova ao longo destes anos, eu corro desde 2012, que eles possam ter falhado por algum compromisso importante, mas a minha mãe, a minha irmã e o meu pai marcam presença em todas as provas. Eles também são uns apaixonados por isto, o meu pai pelo passado que já teve, a minha mãe pelo acompanhamento que já fazia do meu pai enquanto namorados e enquanto marido e a minha irmã porque também cresceu no mesmo meio que eu, já era assim no futebol um acompanhamento gigante dos três membros e assim continua a ser, ou seja, são três pessoas que estão sempre presentes em todos os ralis e que me acompanham em todos os processos e que me dão um apoio muito grande.
A ligação ao Sporting CP moldou o mediatismo do seu projeto desportivo. O piloto recorda o processo de negociação iniciado em 2018 e o orgulho de vestir as cores do clube do coração no ecletismo leonino.

Recentemente anunciou a sua renovação com o Sporting CP, uma parceria que já dura há alguns anos, como é que surgiu esta ligação e como foi para si integrar este projeto sendo sportinguista?
Foi muito bom, a frase que costumo utilizar é que sou um privilegiado poder fazer o que mais gosto e poder representar o clube do meu coração a faze-lo. Em 2018 surgiu a oportunidade de apresentarmos o nosso projeto ao Sporting também o Sporting já tinha um passado bastante rico no desporto automóvel, é o clube mais eclético a nível nacional, um clube que da importância às modalidades, que vive e são apaixonados pelas modalidades não só o clube como os seus adeptos. Tivemos essa oportunidade, reunimos mais que uma vez, a primeira reunião o projeto ainda não tinha a dimensão e o impacto que consideramos necessário para ser o momento de o fazer e então mais tarde ainda em 2018 voltamos a reunir e alinhamos as agulhas para que os ralis viessem a ser uma modalidade dentro do Sporting. Já tinham existido eventos ligados a ralis e pilotos de velocidade, mas pilotos de rali não havia e por isso foi uma honra ter dado esse pontapé de saída.
No plano técnico, as escolhas mecânicas ditam o sucesso no desfecho do cronómetro. Cardeira aborda a difícil decisão de abandonar o Renault Clio e a adaptação ao competitivo Peugeot, sem esquecer a exigente curva de aprendizagem com os pneus Hankook.

Durante muitos anos esteve ao volante de um Renault que, entretanto, foi trocado por um Peugeot há cerca de dois anos. O que tinha vindo a fazer com o Renault sobretudo em 2022/23 com resultados favoráveis e com alguns pódios. O que motivou essa mudança? Sentiu que era a altura de mudar de carro talvez para uma nova experiência?
O Renault era um carro que eu gostava muito e tive bastante pena em desfazer-me dele, era um carro muito bem construído, um carro também tecnicamente muito forte, mas que começou a ficar desatualizado para a realidade dos nossos ralis e para a competitividade do Campeonato Portugal de 2 Rodas Motrizes, foi provavelmente um carro em que eu consegui ter melhores resultados após ter vencido a classe RC5 no Twingo, mas depois no RT3 foi um carro em que eu na geral das 2RM consegui ter melhores resultados e que consegui ser mais competitivo e também com um ritmo e uma velocidade muito grande. Infelizmente há ciclos que se fecham e precisamos de fechar o ciclo do Clio porque lá está já havia soluções mais competitivas e mais recentes, e tudo o que é tecnológico a cada dia que passa as coisas vem bastante melhoradas, e então decidimos fazer essa transição. Mas foi com bastante pena, era um carro que eu gostava e queria ter a oportunidade de voltar a guia-lo, até porque foi um carro que mais tarde viemos a saber que tinha algumas coisas que podiam ter sido melhoradas e desenvolvidas, mas que nunca o conseguiram fazer, o que posteriormente deixou um pouco uma mágoa porque poderíamos ter sido mais competitivos com ele e não o fomot.

Agora a passagem para o Peugeot foi algo natural, era o carro mais representado nas duas rodas, um dos carros mais vendidos, um carro supercompetitivo, bem testado, também a equipa onde ingressamos liderada pelo DR. Vítor Calisto e pelo Carlos Fernandes que tinha sido campeão nacional num carro desses e tinha um consentimento muito grande do veículo, portanto acabou por ser uma decisão natural.
Esta época acabou de arrancar, mas antes de falarmos do presente, que balanço faz da última época? O que possa ter corrido menos bem para agora poder tentar mudar?
Na última época falhamos em momentos importantes, tivemos problemas técnicos em momentos importantes, não técnicos de mau trabalho da equipa, mas de alguma fragilidade da viatura, a viatura é muito competitiva, mas é bastante frágil. E depois nós temos uma parceria desde o ano passado com a Hankook que temos vindo a desenvolver o nosso conhecimento dos pneus, que tem bastante potencial e com que nos temos dado bastante bem mas em determinados momentos não fizemos as melhores escolhas pela falta de conhecimento o que tornou o ano um ano zero e sendo os pneus uma das coisas no desporto automóvel o facto de termos dado alguns tiros ao lado e termos andado á procura da melhor solução de mistura de pneus colocou-nos fora em momentos bastante decisivos e tornou-se num fator que nos meteu de fora da luta e fora dos lugares cimeiros que queríamos. Por outro lado, foi um ano que não sofremos acidentes o que foi positivo e não regredimos a esse nível, não tivemos problemas técnicos por parte da preparação da viatura, mas sim por quebra de materiais. Acaba por ser um ano em que se tirou sempre alguma coisa de positivo.
O Rali D’Abobreira disse que existiram problemas de pneus, algo que acabou de frizar como sendo o maior problema da época passada. Como descreve esse rali?
O Rali Terras D’Abobreira foi um rali onde eu não estive bem, antes da escolha de pneus errados eu não estive bem, fui sempre demasiado conservador na abordagem á prova, era uma prova que não a acabava há dois anos. A degradação dos pisos era extremamente alta, senti que a qualquer momento mesmo com alguma gestão era fácil de quebrar alguma coisa no carro. E então foi sempre demasiado cauteloso e com o nível demasiado competitivo do campeonato todas as cautelas ou facilidade acaba por se pagar muito caro no final de cada troço e por norma o tempo que se perde nunca mais se ganha. Coloquei como objetivo o terminar a prova que não o fazia há algum tempo e tentar conquistar os primeiros pontos.
Viver do automobilismo em Portugal é um desafio hercúleo que exige visão empresarial. O piloto concilia a competição com a sua própria agência de comunicação e recorda o orgulho inigualável de vestir as cores da Seleção Nacional nos FIA Motorsport Games.

Alguma vez pensou mudar de categoria? Sair do 2RM para a categoria principal?
É um objetivo que temos de passar para as 4RM mas neste momento a sustentabilidade do projeto ainda não permite dar esse passo. As 4RM são viaturas e campeonatos extremamente dispendiosos em que os custos de viaturas, manutenção são bastante mais elevados e que neste momento face ao panorama atual do pais, financeiro e da própria modalidade ainda não é o timing para darmos esse passo.
Aproveitando que referiu o quão dispendioso é os custo da modalidade, em Portugal dá para viver do automobilismo ou acha que somente dá para usar como um hobbie?
O automobilismo a nível nacional dá para viver como profissão, agora é um trabalho extremamente difícil, eu neste momento também tenho uma agência de comunicação, mas estou a full time nos ralis e para haver uma preparação como a que tenho feito nos últimos anos e o criar relação com parceiros, o envolvimento com eles a nível digital, a nível das provas, a nível desportivo, poderá dar para mais pilotos o fazerem. Portanto é possível, mas tem de ser algo muito trabalhado e é um passo que não se consegue dar de um dia para o outro.

Recuando agora um bocadinho no tempo, em 2024 representaste Portugal dos Fia Motosport que são basicamente os Jogos Olímpicos do automobilismo. Como foi para si esse momento de representar Portugal e quais os objetivos?
Foi dos momentos mais altos da minha carreira, levar uma nação ás costas foi espetacular, eu não tinha muito conhecimento da tipologia do evento a nível presencial e a realidade é que aquilo foi uma enorme surpresa, um evento super bem organizado, milhares de atletas, foi uma sensação incrível. Poder representar Portugal e sentir que houve uma união bastante grande á volta da nossa participação assim como existiu companheirismo durante a competição foi um momento muito bom da minha carreira. Também fui a segunda melhor participação da comitiva portuguesa nessa edição e fizemos o 5º lugar nos ralis. Foi a minha primeira participação em ralis fora de Portugal portanto foi muita novidade. Foi um mix de orgulho e responsabilidade.
Ao longo da sua carreira ambiciona um dia fazer mais ralis fora de Portugal?
O futuro do meu projeto cabe aos meus parceiros, nos vamos sempre adaptar o protejo aos parceiros que temos, neste momento os meus parceiros comunicam para Portugal e para o publico português portanto neste momento é essa a realidade. Um projeto a nível internacional precisa de outro tipo de estrutura e de outra capacidade de resposta.
Longe da adrenalina e do som dos motores, há um homem focado, ligado aos seus e consciente do caminho que tem pela frente no panorama dos ralis nacionais.

Quem é o Rafael quando não está dentro de um carro de ralis?
O Rafael enquanto pessoa é uma pessoa de família, uma pessoa de amigos, uma pessoa que gosta de estar rodeado das pessoas que lhe dizem muito, é uma pessoa extremamente sentimental, muito trabalhador, sempre em busca dos objetivos, alguém bastante persistentem, bastante focado, com uma perfeita noção de onde está de onde quer ir e como é que o tem de fazer, uma pessoa que procura muito seguir casos de sucesso. O Rafael é uma pessoa que gosta de pessoas e que cada vez gosta mais de si.
Para terminar, quais as expectativas para o resto da época?
Vai ser muito prova a prova, o campeonato está muito competitivo, todos os anos aparecem nos valores, alguns transitam de um ano para o outro, aparecem pilotos novos, cada vez é mais desafiante correr, eu começo a ficar mais velho e os pilotos que aparecem são mais novos com outro tipo de responsabilidade, com uma leveza muito maior quanto ao futuro nos ralis. Vamos trabalhar muito, estamos focados em trabalhar cada vez mais visto que o trabalho vai sendo cada vez mais difícil e quem não trabalhar e quem não se esforçar para fazer a diferença vai acabar por ficar para trás e nós não queremos ficar para trás.





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