O silêncio que agora se abate sobre os corações dos culers tem o peso de uma era que se extingue. Quando o eco dos aplausos de um Camp Nou transbordante finalmente arrefece, percebemos que não estamos apenas a assistir à despedida de uma atleta, mas ao fecho de um capítulo que definiu a identidade do FC Barcelona contemporâneo.

Alexia Putellas, a Rainha, não sai apenas de um clube, ela desaloja-se de um altar que ela própria ajudou a construir, pedra por pedra, ao longo de catorze anos de uma devoção quase religiosa.
Houve um tempo em que aquela miúda, de mão dada com o pai, subia as escadas das bancadas como uma espectadora qualquer, sonhando com o relvado que parecia inalcançável. Quem lhe diria, naqueles dias de infância, que décadas mais tarde, o grito de guerra de noventa mil gargantas naquele estádio seria o seu nome. A trajectória de Alexia não foi uma linha recta, foi uma ascensão meteórica que transformou o futebol feminino de uma curiosidade periférica num fenómeno de massas.

Ela não apenas jogou ela reescreveu a gramática do desporto, impondo a sua visão de jogo com uma elegância que a tornava, simultaneamente, o cérebro da equipa e a sua alma pulsante.

Comparar a sua partida à de Messi é inevitável, não pelo que ambos conquistaram em números que são, aliás, estratosféricos, mas pela cicatriz que deixam no imaginário colectivo. Tal como o argentino, Alexia foi a personificação da mística blaugrana.
Despede-se como a atleta mais titulada da história do FC Barcelona contando todas as modalidades, masculinas ou femininas. Com 232 golos, tornou-se a segunda máxima goleadora do clube ficando apenas atrás do argentino, e mais de 500 partidas, ela deixa um rasto de conquistas que se perdem na contagem: quatro Champions, nove campeonatos, dez taças, 4 supertaças e a distinção histórica de ser a primeira espanhola a erguer uma Bola de Ouro feito que repetiu, carimbando o seu nome na eternidade do futebol mundial.

No entanto, o que fica para além da contabilidade dos títulos é a postura. Alexia nunca foi de se acomodar. Mesmo quando o mundo a via como o topo da cadeia alimentar, ela movia-se com a inquietação de quem ainda tem algo a provar. Foi essa inconformidade que a transformou no dínamo que, numa noite épica contra o Bayern, chamou a si a responsabilidade de decidir, num doblete que soou a despedida de gala.
Ela parte no auge da sua maturidade, com o rótulo de lenda definitivamente cimentado. A renovação contratual que não se concretizou é apenas um detalhe burocrático num matrimónio que foi, acima de tudo, espiritual. Alexia deixa o Barcelona com a consciência pesada apenas pelo tempo que o relógio não consegue parar, mas com a serenidade de quem não deixou uma única tarefa por cumprir.
“La Reina” retira a coroa de blaugrana e, com ela, leva o respeito absoluto de um clube que, sem ela, terá de aprender a ser diferente. O Camp Nou poderá continuar a ecoar o seu nome, mas a partir de hoje, a reverência de Alexia deixa de ser um gesto no relvado para se tornar uma página imutável nos livros de história.
O ciclo fechou-se… O Barcelona diz adeus à sua capitã






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