Diz o cliché que o futebol é o território do imprevisto ou que o tempo é relativo, mas o Torreense tem operado nos últimos 315 dias foge à jurisdição do mero acaso. Não estamos perante uma “boa fase” ou uma conjugação astral de sorte, estamos perante uma lição de engenharia desportiva e de resiliência emocional que está a redesenhar, jogo após jogo, o mapa do futebol feminino em Portugal.

Foto: Rita Ribeiro

Entre maio de 2025 e este último sábado em Viseu, o país assistiu à queda de um muro invisível: aquele que separava os “três grandes” de todos os outros. O Torreense não saltou esse muro, ele deitou-o abaixo com a força de quem tem pressa em ser eterno, passou a ser um “outsider” para se tornar o pesadelo dos crónicos candidatos.

O fio condutor desta epopeia não se mede apenas em troféus, embora a frieza dos números seja, por si só, avassaladora. Três finais disputadas, três troféus erguidos. Cem por cento de eficácia num território, o das decisões ,onde normalmente as pernas tremem e os emblemas pesam. A cronologia é de uma vertigem absoluta: começou no Jamor, com a histórica conquista da Taça de Portugal frente ao Benfica, confirmou-se em agosto, na Supertaça, provando que o primeiro golpe não fora um acidente e selou-se agora, em março, com a Taça da Liga. Em menos de um ano, o clube de Torres Vedras conquistou o que outros projetos estruturados levaram tempo a alcançar e mesmo assim não conseguiram. É a certidão de nascimento de uma nova potência.

No centro desta engrenagem está Gonçalo Nunes. O técnico Torreense não se limitou a montar um onze competitivo, ele forjou uma identidade. Numa modalidade onde a rotatividade de jogadoras é, muitas vezes, o inimigo número um da coesão, o Torreense apostou no inverso, na continuidade e no aperfeiçoamento de uma ideia. Enquanto colossos sofriam com a sangria de talento e a necessidade de adaptação a novos sistemas o Torreense refinava rotinas.

Falar deste Torreense é falar de uma identidade muito própria:

A entrada de Gerda Konst para o lugar de Samara Lino é o exemplo perfeito desta transição orgânica. Onde outros veriam uma lacuna difícil de preencher, o Torreense viu uma oportunidade de evolução. O segredo desta equipa reside na sua capacidade de mutação ,tanto constrói com paciência, ligando os setores com critério, como fere o adversário em transições venenosas conduzidas pela verticalidade de Janaina Weimer e Ava. No relvado, a capitã Carolina Correia, com apenas 23 anos, exibe a serenidade de quem já viu tudo no futebol. É nela, na sua capacidade de controlar a profundidade e de liderar pelo exemplo, que começa a segurança de um grupo que se recusa a ser pequeno.

Mas ninguém fica de fora todas são peças cruciais! Rute Costa, Raquel Ferreira, Maile Hayes, Bárbara Lopes, Catarina Pereira, Bruna Ramos, Jena Tivnan, Paloma Lemos, Rafa Rufino,Tessa Salvestrin, Nicole Nunes, Mia Klammer, Janny, Vera Cid, Maria Guerreiro, Matilde Costa e Daniuska 

Este sucesso não ficou confinado às fronteiras do Oeste. O “palco dos sonhos” da Seleção Nacional abriu as portas a Carolina Correia, Bárbara Lopes e Raquel Ferreira, premiando o mérito de quem trabalha muitas vezes longe dos holofotes, mas com uma exigência profissional absoluta. O facto de Samara Lino ter chegado às convocatórias de Francisco Neto enquanto representava o azul-grená é a prova de que Torres Vedras é hoje um selo de garantia de qualidade. O Torreense tornou-se, por direito próprio, o principal fornecedor de talento fora do eixo hegemónico de Lisboa.

A justiça do título conquistado em Viseu, na Taça da Liga, merece uma análise que vá além da expulsão precoce de Erin Seppi. Há quem tente desvalorizar a vitória pela superioridade numérica, mas a verdade é que o futebol é um jogo de contextos e na Taça de Portugal por exemplo foi o próprio Torreense que esteve a jogar em desvantagem. O Torreense soube ser adulto. Soube gerir a posse, soube não se deixar levar pelo desespero e, acima de tudo, soube assumir o favoritismo. Ao contrário das finais contra o Benfica, onde a pressão estava do outro lado, em Viseu o Torreense era um dos grandes, porque ali não podiam chamar ninguém de pequeno. E não tremeu. Esta capacidade de mudar de pele de “David” para “Golias” é o que separa as equipas de passagem das equipas que ficam para a história.

A realidade estatística é cruel para os adversários: em apenas dez meses, o Torreense somou tantos títulos quantos o Sporting e o Braga conquistaram nos últimos cinco anos. Este dado é o espelho de uma gestão que soube contornar adversidades, como o facto de “andar com a casa às costas” nesta temporada, longe do Estádio Manuel Marques. Hoje, o clube ocupa o terceiro lugar do campeonato, com o segundo posto e a consequente qualificação europeia ambos a uma distância perfeitamente alcançável.

O duelo com o Benfica que se avizinha não é um fardo, é uma oportunidade. Para quem venceu três títulos em menos de um ano, o medo é uma palavra que não consta no dicionário. O objetivo certamente que agora será chegar á Europa, o lugar que viram escapar na época passada por apenas um pouco. A humildade de Gonçalo Nunes ao responder sobre o futuro não é falta de ambição é a consciência de quem sabe que o sucesso é um edifício que se constrói tijolo a tijolo, jogo a jogo.

O percurso do Torreense é um manifesto contra o determinismo financeiro. Prova que, com método, estabilidade técnica e uma estrutura que olha para o futebol feminino como um eixo estratégico e não como uma obrigação, é possível desafiar a ordem estabelecida.

Mas este caminho não é feito apenas de estatística. É feita de mulheres que vestem o sonho de uma infância. Num desporto que ainda luta por cada centímetro de reconhecimento e espaço, estas jogadoras são pioneiras. Elas jogam por elas, pelo clube, mas também por um futuro onde a qualidade não seja medida pelo género, mas pelo talento.

A tempestade azul-grená que varreu o Jamor, Aveiro e Viseu não vai dissipar-se tão cedo. O Torreense é hoje um gigante de pleno direito no panorama nacional. Não foi a sorte que as trouxe aqui,foi a luta, o foco e a coragem de quem percebeu que, no Oeste, o vento sopra sempre a favor de quem o sabe cavalgar. O mapa do futebol português mudou. E o centro de gravidade, por agora, mora em Torres Vedras. O império está construído agora, resta ao resto do país tentar acompanhá-lo.

Onde antes havia um duopólio ou triopólio, agora há uma mancha azul-grená que reclama o seu lugar no topo. Não foi sorte. Foi luta, foi foco, foi coragem.

Foi, acima de tudo, Torreense.

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