Houve um tempo em que ela era apenas uma menina, de mão dada com o pai, subindo as bancadas para ver os seus ídolos. Hoje, os mais de 60 mil adeptos que esgotaram o estádio, o primeiro, desde a reabertura parcial em novembronão foram lá para ver fantasmas do passado, mas para testemunhar a consagração da mulher que transformou o futebol feminino num império.

Foto: Reprodução internet e X



A tarde tinha o peso do destino. O relógio marcava o jogo número 500 de Alexia com a camisola blaugrana, uma marca que a coloca no Olimpo das lendas, mas o futebol, mestre em detalhes poéticos, reservava algo mais. Ao marcar o seu 231.º golo, Alexia não só selou uma exibição perfeita, como se colocou a apenas dois passos de ultrapassar César e tornar-se a segunda maior goleadora de toda a história do clube, ficando apenas atrás da sombra eterna de Lionel Messi. É um dado que arrepia, numa instituição com mais de um século, é uma mulher que reclama o trono da eficácia.

A história entre Alexia e o golo é um fio condutor que une o passado ao presente de forma quase mística. Foi ela quem marcou o primeiro golo da história do El Clásico em 2019 e foi ela quem, na primeira mão desta eliminatória, assinou o golo número 100 do confronto contra o eterno rival. Parece que o universo, consciente da sua importância, lhe entrega sempre a caneta para escrever os capítulos mais dourados. O Camp Nou, onde ela foi a primeira mulher a faturar e onde regressou em lágrimas após dez meses de agonia devido a uma lesão grave, rendeu-se hoje à sua capitã de forma absoluta.

Foto: FC Barcelona



Ver Alexia em campo é perceber que o Barcelona não é apenas o clube onde ela trabalha, mas a pele que ela habita. Desde que chegou em 2012, aos 18 anos, a sua ascensão foi o motor de uma equipa que deixou de ser uma promessa para se tornar a força dominante da Europa. A Bola de Ouro de 2021 e 2022 foi o reconhecimento do mundo, mas o rugido das 60 mil vozes no jogo 500 é o reconhecimento do seu povo. A força desta equipa feminina, capaz de esgotar o estádio antes mesmo da equipa masculina o conseguir nesta nova fase, é o espelho do “efeito Alexia”.

Embora o contrato termine em junho e o futuro ainda dance entre a renovação até 2027 e a incerteza, existe algo que nenhum papel assinado pode mudar: a simbiose. No desporto moderno, onde a lealdade é um recurso escasso, o “match” entre Putellas e o Barça é uma anomalia de beleza rara.

Ela é o Barcelona e o Barcelona é ela.

Se este foi um dos últimos atos da sua história no Camp Nou, foi desenhado com a perfeição de quem sabe que as lendas não precisam de contratos para serem eternas. Mas, a julgar pelo brilho nos olhos da capitã e pelo clamor das bancadas, a história ainda tem muitas páginas em branco à espera do seu pé esquerdo.

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