O silêncio das jogadoras da seleção feminina do Irão no arranque da Taça Asiática de 2026 transformou-se rapidamente num caso político dentro do país. Durante o primeiro jogo da competição, frente à Coreia do Sul, as atletas permaneceram caladas enquanto soava o hino da República Islâmica um gesto que muitos observadores internacionais interpretaram como uma forma de protesto silencioso contra o regime.



A reacção dentro do Irão foi imediata e particularmente dura. Na televisão estatal IRIB TV3, um dos principais canais do sistema mediático ligado ao poder teocrático, o comentador Mohammad Reza Shahbazi lançou um ataque frontal às futebolistas durante um monólogo transmitido em horário nobre. No discurso, classificou a atitude como “o auge da desonra e da falta de patriotismo”, defendendo que actos considerados contrários ao país deveriam ser punidos de forma exemplar, tanto pelas autoridades como pela própria sociedade.

A retórica agressiva não ficou confinada à televisão. Outros órgãos de comunicação associados ao Estado também criticaram severamente a equipa. O portal Mizan, ligado ao poder judicial iraniano, e a agência Fars News, próxima do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, utilizaram igualmente a expressão “traidoras de guerra” para descrever as jogadoras.

A polémica surgiu num momento em que a participação do Irão na Taça Asiática Feminina já estava sob forte escrutínio internacional. O silêncio das atletas durante o hino foi visto, fora do país, como um gesto simbólico de contestação e coragem num contexto político particularmente sensível.

No entanto, no segundo encontro da fase inicial, disputado no dia seguinte frente à Austrália, o cenário foi diferente. Antes do apito inicial, as jogadoras entoaram o hino nacional e fizeram uma saudação marcial, numa imagem que contrastou fortemente com o episódio do jogo anterior.

Entre pressões políticas internas e atenção mediática global, a equipa iraniana acabou por se tornar o centro de um debate que ultrapassou largamente as quatro linhas do futebol.

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