Num estádio australiano, longe de Teerão mas com os olhos do mundo apontados ao relvado, a seleção feminina do Irão protagonizou um momento que ficará gravado na história do desporto asiático. Antes do arranque do encontro frente à Coreia do Sul, a contar para a Taça da Ásia Feminina, as jogadoras iranianas permaneceram imóveis e em silêncio enquanto ecoavam os acordes de “Mehr-e Khavaran”, o hino oficial da República Islâmica.

Video: Reprodução Internet / X



A cena desenrolou-se no Cbus Super Stadium, na Gold Coast, perante um público surpreendido. Não houve lábios a acompanhar a melodia, nem gestos protocolares. Apenas silêncio. Um silêncio pesado, interpretado por muitos como sinal de contestação num período particularmente conturbado para o país.

O gesto surge dias após um ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel que terá resultado na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. A tensão política agravou-se e a sociedade iraniana vive momentos de incerteza.

Em campo, o desfecho foi desfavorável: derrota por 0-3 frente às sul-coreanas. Fora das quatro linhas, porém, o impacto foi incomparavelmente maior. A selecionadora, Marziyeh Jafari, evitou comentários sobre o contexto político e limitou-se a sublinhar a necessidade de foco na competição.

Nas bancadas, um pequeno grupo de adeptos iranianos exibiu bandeiras nacionais incluindo a versão anterior à Revolução Islâmica e entoou cânticos de apoio. Entre o silêncio das jogadoras e as vozes vindas da bancada, ficou a imagem de uma equipa que, mesmo longe de casa, escolheu fazer ouvir a sua posição sem pronunciar uma única palavra.

O silêncio das iranianas foi mais do que ausência de voz  foi uma declaração carregada de significado. Num contexto em que qualquer gesto pode ter consequências imprevisíveis, a decisão de permanecerem caladas diante do hino oficial transformou-se num ato de coragem rara.

Sem cartazes, sem palavras e sem confrontos, aquelas mulheres fizeram do silêncio um grito coletivo, afirmando dignidade e resistência num palco internacional.

A quietude alinhada em campo ecoou mais alto do que qualquer cântico, revelando uma valentia serena que ultrapassou o resultado do jogo e se inscreveu como símbolo de determinação e consciência.

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