Depois do jogo disputado em São Mamede do Coronado, que terminou com várias situações de hipotermia e a necessidade de assistência hospitalar, Beatriz, jogadora do Nogueirense, decidiu dar voz ao que foi vivido dentro e fora de campo.



Num testemunho direto e emotivo, a atleta descreve, passo a passo, as condições extremas enfrentadas pela equipa, os momentos de maior aflição no balneário e a forma como toda a situação foi gerida. Um relato que ajuda a compreender a dimensão humana de um episódio que marcou profundamente quem esteve presente

Testemunho da jogadora Beatriz Sofia:

Após o apito para o intervalo entramos dentro dos balneários para discutir o que fazer a seguir, o que é natural em qualquer tipo de jogo, no entanto, havia jogadoras a tremer de frio, algumas a chorar enquanto pediam ao treinador para adiar o jogo para dia 8.

A bola simplesmente nao rolava dentro de campo, a chuva entrava nos olhos e o frio era insuportável. Após uma ida á equipa de arbitragem pelo nosso mister, a arbitra entra dentro do nosso balneário e diz que o jogo vai continuar, pois a outra equipa não queria que acabasse

Entretanto começa haver a calamidade ao qual foi referido na notícia, os casos de hipotremia.
Uma das nossas jogadoras começou a tremer e a dizer que tinha muito frio, levamos á zona do chuveiro para aquece-la… ela continuava a tremer de frio e agora tinha perdido força nas pernas; tivemos que mante-la no chão enquanto levava com a agua quente, foi tudo em vão ela desmaia, o caos foi instalado.

Entre tudo que tinhamos de roupas, mantas, meias, estava tudo molhado, quer pela chuva que levamos quer pelas condições do balneário HORRIVEIS. Havia infiltrações, água a cair do teto ao qual molhou toda a nossa roupa que tinhamos guardado. Tentamos resolver de alguma maneira; eu dei um casaco, havia colegas que tinha uma ou outra peça de roupa seca e foram dando á nossa atleta.

Ela continuava a tremer de frio, com uma cor na cara irreconhecível, sem força para nada… chamamos os bombeiros, pois a situação estava tão escalada que nao tinhamos nenhuma maneira que a controla-la.

Tentamos pedir aquecedores, bancos (para sentar as pessoas, pois ninguém sentia as pernas), foi nos dito que não havia secador e foi nos dado apenas UM secador… havia pelo menos 4 jogadoras à volta do mesmo secador tentar secar uma roupa completamente encharcada.

Enquanto tratava-mos do caso da hipotremia da nossa jogadora é nos dito que o nosso mister também estava a entrar em hipotremia.

Ele é trazido pela a nossa equipa para o balneário para que fosse executado, o mesmo processo que aconteceu com a nossa colega.
Sinceramente, lembrar-me daquilo que aconteceu continua a dar-me arrepios de tão surreal que foi.

Entretanto a árbitra aparece novamente a dizer que o jogo iria prosseguir pois já nao estava a chover, ela dizia isto enquanto tremia de frio e os olhos dela lacrimejavam.

Eu já muito aborrecida com a situação respondo que neste momento nem seria pela chuva nem pelo frio mas sim pelo estado de saúde que se encontrava as atletas dentro das ambulâncias e as que estavam no balneário. Ninguém estava pronto para entrar, ninguém queria entrar, NINGUÉM queria passar por aquele momento outra vez, nem pelo frio.

Infelizmente tivemos que ir.
Enquanto não íamos para o jogo e ainda havia pessoas que não estavam a 100% continuamos de alguma forma para aquecer, quer tirar tudo do nosso corpo e meter as nossas toalhas de banho á nossa volta e reunir em círculo para que não houvesse frio

Dentro de campo era notório a falta de concentração da equipa  por tudo aquilo que havia passado, não se queria repetir o sucedido.
Esqueci-me de mencionar uma coisa MUITO importante.

Durante os momentos de socorro dentro do balneário e no campo, a luz foi abaixo mais de 15 vezes, o qual prejudicou muito quer num lado quer no outro. Num momento em que precisvamos de energia para ter água quente para aquecer a equipa e no outro para ver onde a bola estava e a continuidade do jogo. O jogo muitas vezes ficava parado, arrefecíamos e perdíamos o rumo mais uma vez.

Ninguém falava dentro de campo, e penso que ninguém estava disposto a falar após TUDO que aconteceu e pela forma que foi gerida.
Este foi o meu relato, a tentar realçar tudo que aconteceu dentro do balneário principalmente.

Queria também agradecer pela espaço que me deu para dizer a verdade dos factos e também pela notícia transmitida na sua conta!

É importante dar a conhecer ás pessoas aquilo que foi desenrolado no jogo de ontem



O testemunho de Beatriz expõe uma realidade dura, marcada pelo frio extremo, pela falta de condições mínimas e por decisões que, segundo a atleta, colocaram em risco a saúde física e emocional de jogadoras e equipa técnica.

Mais do que um simples jogo, o que aconteceu naquele final de tarde deixou marcas difíceis de apagar e levanta questões sérias sobre segurança, responsabilidade e proteção dos atletas. Tornar público este relato é, acima de tudo, uma forma de garantir que episódios semelhantes não sejam ignorados nem repetidos, e que o bem-estar dos jogadores esteja sempre acima de qualquer resultado desportivo.

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