O futebol alimenta-se de rituais: o cachecol ao pescoço, o burburinho à porta do estádio, e em muitos casos a luz dos holofotes que rasga o cair da noite. Mas esta quarta-feira, em Guimarães, o ritual será substituído pelo silêncio de quem está a trabalhar ou a estudar. Vitória SC e FC Porto defrontam-se na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal às 11 horas da manhã. Sim, leu bem. A meio da semana, em horário laboral, como se de um treino à porta aberta se tratasse e não de um passo decisivo rumo ao Jamor.

A pergunta impõe-se com a força de um remate ao ângulo: fariam isto se fosse futebol masculino? A resposta é um “não” tão redondo como a bola. No masculino, o jogo seria um evento nacional, com direito a horário nobre e transmissão em canal aberto. No feminino, é um “ajuste de calendário”.
Esta decisão da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não é apenas um erro de logística; é, aos olhos de qualquer observador atento, uma ridicularização. Falamos de clubes que estão a investir seriamente na formação, de jogadoras que carregam sonhos e, acima de tudo, de profissionais (ou aspirantes a sê-lo) que merecem respeito.
As palavras de Daniel Chaves, técnico do FC Porto, são o eco de uma realidade frustrante. Quando um treinador admite que terá jogadoras a faltar ao trabalho e à escola para disputar uma meia-final da Taça, percebemos que o discurso da “promoção do futebol feminino” é, muitas vezes, apenas cosmética.
Enquanto isso Braga e Benfica se defrontam às 19h, um horário minimamente aceitável. Se usarem o argumento da presença de uma equipa da II Divisão (o Porto) isso deixa de ser credivel a partir do momento que vemos a Taça de Portugal masculina onde as meias finais terão uma equipa da 3 e da 2 divisão e onde seguramente o jogo não será num horário matinal a meio da semana
Ao marcar um jogo para as 11h, a FPF está a dizer aos adeptos que a presença deles é opcional. Está a dizer às jogadoras que o sacrifício delas, pessoal e profissional é um detalhe secundário.
Infelizmente, parece ser “só mais um dia” no futebol feminino português. Um dia onde a obrigação se sobrepõe à paixão e onde o crescimento da modalidade esbarra na miopia de quem decide. O futebol feminino não pede favores; pede apenas o mínimo de dignidade. E jogar uma meia-final enquanto o país está no escritório não é, certamente, o caminho para o Jamor que estas atletas merecem.
Declarações do técnico Daniel Chaves:
“Num país que quer promover o futebol feminino, jogar às 11 da manhã de uma quarta-feira não é positivo, principalmente quando quem está presente nessa eliminatória é uma equipa não profissional da II Divisão. Acho que devia haver um cuidado especial da federação nesse sentido. O horário não é apelativo para os adeptos que pretendem assistir ao jogo e nós vamos ter jogadoras a faltar ao trabalho e à escola. “






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