Há decisões que não nascem do acaso. Nascem do medo, do prejuízo e de uma lógica antiga que insiste em sobreviver no futebol. O Fortaleza Esporte Clube anunciou o fim do futebol feminino precisamente no momento em que o clube masculino cai de divisão. Não é coincidência. É método.

Foto: Paulo Matheus (FEC)



Depois de um ano histórico, em que as Leoas do Pici conquistaram títulos, dominaram o cenário estadual e garantiram um acesso inédito à Série A1 do Brasileirão Feminino, o projecto é encerrado sem que uma única falha desportiva lhe possa ser apontada. Pelo contrário: foi o sucesso que o tornou incómodo.

A explicação oficial fala em “restrições financeiras” impostas pela SAF, consequência directa da descida do futebol masculino. Quando o dinheiro escasseia, o corte é rápido e previsível. Primeiro desaparecem as mulheres. Aconteceu agora no Fortaleza. Aconteceu no ano passado com o Athletico Paranaense. Acontece sempre que o futebol dos homens falha e precisa de salvar a própria pele.

O padrão repete-se com uma precisão assustadora. O futebol feminino cresce, ganha, cria identidade e gera orgulho. Mas continua dependente do humor financeiro do masculino, tratado como um apêndice dispensável, mantido muitas vezes apenas para cumprir exigências institucionais da CBF e da CONMEBOL. Quando a obrigação pesa mais do que a conveniência, o projecto é simplesmente desligado da tomada.

As jogadoras do Fortaleza não perderam em campo. Foram derrotadas nos gabinetes. Defenderam um símbolo, elevaram o nome do clube, fizeram história no Ceará e preparavam-se para competir entre as melhores do país. Em troca, recebem incerteza, desemprego e silêncio.

O mais duro é perceber que quem falhou continua. Quem caiu de divisão mantém estrutura, investimento e segundas oportunidades. Quem subiu, sai. A mensagem é clara e devastadora: no futebol, o mérito feminino ainda vale menos do que o erro masculino.

Assim, entra mais um ano. E, como quase sempre, continua a ser um mau ano para ser mulher no desporto. Porque quando os homens descem, não são eles que pagam a queda.

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