Durante mais de um ano e meio, o Chelsea habituou o futebol feminino inglês a uma narrativa quase mitológica: a de uma equipa que não cai, que não quebra, que não conhece derrotas.

Mas, no Kingsmeadow, num fim-de-tarde que ninguém previu tão amargo, o encanto desvaneceu-se. O Everton, disciplinado e valente, escreveu o seu nome na crónica da Superliga ao impor às campeãs a primeira derrota em 1 ano e 7 meses, e a primeira vez 66 jogos sem deixar as redes adversárias abanarem.
O golpe foi seco e precoce. Toni Payne rasgou a ala com a convicção de quem vê um destino à frente, cruzou rasteiro para o coração da área e encontrou Hayashi no segundo poste. Um toque simples, um silêncio pesado e um estádio incrédulo. O Chelsea, tantas vezes soberano, parecia preso num meio-campo lento, previsível, incapaz de transformar posse em perigo. E o tempo só tornava o golo das visitantes mais simbólico um castigo pela apatia azul.
Do outro lado, a muralha do Everton levantava-se peça por peça. Courtney Brosnan, gigante na baliza, travou tudo o que tinha de travar. Ruby Mace e companhia defenderam como quem protege o último fôlego. Cada corte, cada antecipação, cada corrida parecia feita com energia renovada. A equipa sabia que estava perto de algo grande e jogou como tal.
O intervalo trouxe um Chelsea mais vivo, mais urgente, mas ainda longe da clareza que outrora definia o seu ataque. A entrada de Sam Kerr injetou perigo imediato, mas não o suficiente para desmontar o bloco azul de Liverpool. E, quando o Everton vacilou por um instante, foi a trave a erguer-se como aliada inesperada: primeiro após um canto caótico, mais tarde a negar de novo o empate num cabeceamento de Wieke Kaptein que fez o estádio prender a respiração.
Para o Chelsea, o desfecho é pesado. As campeãs das últimas seis temporadas permanecem em segundo, seis pontos atrás do Manchester City após apenas dez jornadas uma diferença que pode custar um título que parecia, até há pouco, inevitável. Sob o comando de Sonia Bompastor, a equipa já conhecia empates… mas derrota, só mesmo recuando a maio de 2024, naquela louca tarde de 4-3 frente ao Liverpool.
No fim, ficou a sensação de um choque sísmico na WSL: o gigante fraquejou, a invencibilidade caiu e o campeonato ganhou um enredo inesperadamente emocionante. E o Everton, com disciplina e coragem, provou que até as muralhas mais impressionantes têm fissuras basta encontrar o momento certo para as fazer ruir.







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