Há derrotas que doem.
E há derrotas que acendem um país inteiro.
A de hoje pertence à segunda categoria.

Portugal não trouxe o ouro para casa, é verdade. O Brasil venceu por 3-0 e levou o título do primeiro Mundial feminino de futsal oficialmente organizado pela FIFA, nas Filipinas. Mas quem viu este jogo sabe: foi um segundo lugar que cheira a vitória.

Foto: FPF



Foi um daqueles dias em que o coração bate mais alto do que o marcador.

O desafio era quase mitológico: enfrentar o colosso brasileiro, líder do ranking, três anos invicto, dono de seis títulos mundiais na era “não oficial”. E mesmo assim, ali estava Portugal, de cabeça erguida, a olhar o gigante nos olhos sem medo, sem hesitar.

O caminho até à final já era, por si só, uma epopeia.
Cinco jogos de excelência absoluta:
10-0 à Tanzânia.
3-1 ao Japão.
10-0 à Nova Zelândia.
7-2 à Itália nos quartos.
7-1 à Argentina nas meias, derrubando uma das favoritas.

Que equipa faz isto?
Uma equipa gigante. Uma equipa que honra a camisola. Uma equipa que inspira miúdas e graúdas a acreditar.

Na final, Portugal entrou com alma. Jogou simples, jogou inteligente, jogou com coragem. Teve momentos de génio, oportunidades que rasgaram o silêncio da arena, suor que se confundia com esperança. Bianca, do outro lado, negou o empate mais do que uma vez. Ana Catarina, a nossa muralha, segurou o jogo quando o Brasil tentou esmagar.

O primeiro golo brasileiro chegou num detalhe.
O segundo num toque de génio, cruel e bonito.
O terceiro já com Portugal a arriscar tudo, como quem põe o coração onde outros só colocam prudência.

Na final, Portugal entrou com alma. Jogou simples, jogou inteligente, jogou com coragem. Logo aos 6 minutos, Fifó colocou uma bola perfeita ao segundo poste para Maria Pereira, que chegou a milímetros de empurrar para dentro. Pouco depois, Lídia Moreira apareceu isolada, mas a bola longa chegou com demasiada força.

E, momentos mais tarde, após livre estudado, Maria voltou a surgir ao segundo poste, atrasada apenas por um sopro.

Do outro lado, brilhou a nossa muralha: Ana Catarina, a melhor do mundo, que defendeu o remate fortíssimo de Natalinha e ainda bloqueou com o rosto a recarga de Luana Rodrigues, num lance que arrancou aplausos do pavilhão inteiro.

Antes do intervalo, Lídia Moreira ainda desviou um lançamento longo e deixou todos a prender a respiração.

A segunda parte começou com talento brasileiro fresco. Simone Sindy ganhou a ala numa jogada deliciosa e cruzou para Amandinha, que picou a bola por cima de Ana Catarina tão bonito quanto doloroso.

Portugal recusou baixar os braços.
Kika tentou reduzir de longe, Kaká desviou outra bola que saiu a rasar o poste, e até houve um momento em que o árbitro assinalou penálti a favor de Portugal… para depois o VAR o reverter. Um daqueles instantes que mudam histórias.

Com o resultado em risco, Inês Matos brilhou num corte impressionante que evitou o 3-0. E Ana Catarina voltou a rugir, negando golos cantados a Emilly e Ana Luiza.

Mas já com Portugal em 5×4, a arriscar tudo, uma perda de bola permitiu a Débora Vanin marcar de longe para a baliza deserta. O 3-0 que fechou o marcador, mas não apagou a grandeza que Portugal exibiu.

No fim, o que fica?
Não é o 3-0.
É o brilho nos olhos destas jogadoras.
É a certeza absoluta de que Portugal pertence à elite mundial.
É o vice-campeonato num Mundial histórico.
É a emoção de ver um país inteiro orgulhoso, unido, agradecido.

Hoje o futsal feminino português escreveu uma página inesquecível.

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