Entre vitórias e sacrifícios, cada vez mais atletas desafiam o mito de que ser mãe significa o fim da carreira. Mas o caminho de regresso ainda é desigual, difícil e pouco falado. Durante décadas, a gravidez foi vista como o fim da linha para atletas femininas. Clubes rescindiam contratos, patrocinadores desapareciam, e a recuperação pós-parto era considerada incompatível com o alto rendimento.


Hoje, essa visão está mudando. Em várias modalidades, atletas voltam a competir e até a vencer após serem mães. Mas o equilíbrio entre o corpo, a maternidade e a carreira desportiva continua a ser um desafio diário.

Foto: Getty Images / Observador

Alex Morgan vivia o auge da carreira quando a vida a surpreendeu com uma nova missão: ser mãe. Em 2019, a estrela norte-americana mudou-se para o Tottenham, e semanas depois a anunciou a gravidez da primeira filha, num momento em que era uma das figuras mais influentes do futebol mundial. A bebé nasceu em maio de 2020, quando o mundo estava parado pela pandemia, um tempo estranho, mas que acabou por lhe permitir viver a maternidade sem a pressão constante das competições.

Meses depois, Morgan regressou aos relvados pelo Tottenham Hotspur, em Inglaterra. Foi uma decisão simbólica , uma forma de provar que podia voltar ao topo mesmo depois da pausa. E conseguiu. Em várias entrevistas, a americana confessou que a maternidade a tornou mais equilibrada, ajudando-a a controlar melhor as emoções e a melhorar o foco dentro de campo.

Cinco anos depois, com a filha a crescer e a carreira ainda em alta, Alex Morgan voltou a viver um daqueles momentos que mudam tudo. Em 2024, anunciou que estava grávida pela segunda vez. Desta vez, a decisão foi diferente: aos 36 anos, a norte-americana entendeu que era hora de encerrar a carreira. Sabia que a pausa seria longa, que o corpo precisaria de tempo, e que regressar perto dos 38 já não seria o mesmo que na primeira gravidez.

A despedida, no entanto, não veio com tom de fim, mas de plenitude. Morgan sai de cena como uma das maiores da história, símbolo de uma geração que mostrou que a maternidade e o futebol podem coexistir que, por vezes, o verdadeiro auge de uma atleta não se mede apenas pelos golos, mas pela coragem de escolher o seu próprio caminho. Mas como ela tambem há outras jogadoras com a coragem de seguir este caminho e provar que é possivel ser mãe e ser jogadora!

Mas nem só o futebol vive com esta tematica, todos os desportos paraticados por mulheres são abrangido,exemplos como Serena Williams que regressou aos courts meses após o parto, e a velocista Allyson Felix que denunciou a Nike por cortar patrocínio quando engravidou e fundou a sua própria marca.

Grávida de sete meses e meio, tenista Serena Williams
Foto: Instagram @serenawilliams

A gravidez altera o corpo de forma profunda: peso, equilíbrio, circulação, ligamentos, níveis hormonais.A recuperação depende da modalidade e do tipo de parto, mas a média para o regresso competitivo situa-se entre 6 meses e 1 ano.

Fisioterapia pós-parto, fortalecimento do core e acompanhamento nutricional são essenciais. Algumas atletas afirmam que voltam mais fortes mentalmente, com maior foco e resiliência. O corpo, porém, exige tempo e respeito, e a pressão para “voltar rápido” pode ser perigosa.

“Ser mãe ensinou-me a ouvir o meu corpo como nunca antes”, Sara Moreira, atleta portuguesa que regressou à competição depois de ser mãe.

Sara Moreira com o filho, na Maratona de Nova Iorque de 2015
Foto:Elsa

A maioria dos contratos desportivos não previa (ou ainda não prevê) cláusulas de proteção em caso de gravidez. Durante anos, atletas grávidas perdiam salário e patrocínio. Só recentemente, algumas federações e marcas começaram a mudar isso.

A FIFA, em 2021, introduziu licença de maternidade obrigatória de 14 semanas com salário integral para jogadoras. Em Portugal, ainda há lacunas contratuais especialmente fora do futebol profissional.A maternidade é um risco financeiro que muitas atletas ainda sentem necessidade de esconder.

A velocista Allyson Felix denunciou que a Nike queria reduzir o seu patrocínio em 70% por estar grávida. Hoje, ela lidera campanhas de igualdade para mães atletas.

Shelly-Ann Fraser-Pryce (atletismo) ganhou medalhas após ser mãe, dizendo: “Correr depois de ter um filho não é mais difícil. É mais significativo.”

Shelly-Ann Fraser-Pryce, segura seufilho após vencer o título mundial dos 100m em Doha. Foto:SPORTMEDIA.

Enquanto os atletas homens continuam as suas carreiras sem impacto direto pela paternidade, as mulheres ainda enfrentam julgamentos:

“Vai voltar à forma?”

“Ainda tem foco?”

“Não devia se dedicar à família?”

Estas perguntas raramente são feitas a atletas masculinos. É aqui que o desporto reflete a sociedade e onde políticas de apoio e mudança cultural são mais necessárias.

Mas há sinais positivos, clubes que já oferecem apoio logístico a mães atletas (creches, alojamento familiar, horários flexíveis). Marcas que criam equipamento específico para gravidez e pós-parto (ex.: leggings com suporte abdominal, soutiens de amamentação de alto desempenho). Federações internacionais que protegem ranking e salário durante a licença de maternidade.

Por exemplo no futebol, atualmente em Inglaterra, tanto na primeira como na segunda divisão as jogadoras passam a estar mais protegidas dentro deste tema, a terem mais direitos e a terem os seus contratos resguardados, assim como tambem acontece em Itália no caso do AC Milan. Embora sejam casos conhecidos e que a respeitva federção e clubes acabaram por anunciar, a verdade é que ao dia de hoje, perante a lei da FIFA, abordada em cima, os clubes podem ser alvo de multas pesadas e até mesmo estarem proibidos de inscrever jogadoras em caso de discriminarem os direitos da maternidade.

Mas ainda há caminho a percorrer, especialmente em Portugal, onde o tema quase não aparece nas políticas desportivas públicas.

Ser mãe e atleta é mais do que uma escolha pessoal é uma prova de força, disciplina e amor. Cada vitória pós-parto é também um manifesto: o desporto pode (e deve) ser um espaço onde a maternidade não é um obstáculo, mas uma parte da jornada.

Nada Hafez, do Egito, disputou as Olimpíadas de Paris grávida de sete meses
Foto: Carl Recine/Getty Images

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