Na ressaca de mais um Europeu frustrante, Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, apareceu frente às câmaras da RTP com um discurso que pretendia inspirar confiança, mas que acabou por gerar incredulidade. Afinal, há frases que não se apagam com palmas.

Foto: FPF

Francisco Neto tem feito um trabalho absolutamente extraordinário. […] É um homem de corpo e alma. […] Do meu lado terá esta palavra e este ânimo. Esperamos que daqui a quatro anos possamos ter um Francisco ainda mais motivado para fazer coisas boas porque vamos dar muitas alegrias aos portugueses.”

E é aqui que a crónica começa verdadeiramente. Porque há algo de profundamente desconectado entre a realidade do relvado e a visão que dela têm os gabinetes da FPF. Francisco Neto chega ao fim de mais uma competição com os mesmos erros de sempre, as mesmas decisões conservadoras, o mesmo discurso de “processo”. E quem assiste, quem sente, quem sofre com a Seleção, vê uma equipa que precisa de oxigénio. Não de continuação por teimosia institucional.

Pior ainda, a incoerência das palavras do presidente não ficou por aqui.

“Quero dar os parabéns a estas meninas. Isto faz parte de um processo. […] Tenho a certeza absoluta de que estamos a fazer, todos, este trabalho muito bem. Uma palavra também de esperança. É a primeira vez que estamos num Campeonato da Europa de senhoras e tenho a certeza de que daqui a quatro anos vamos estar muito mais fortes.”

Esta frase caiu como um trovão. Primeira vez? Já vamos no terceiro Europeu. 2017 na Holanda, 2022 em Inglaterra, e agora 2025 na Suíça. São factos. Estão nos arquivos. Estão nos corações de quem acompanhou cada uma dessas fases, com esperança renovada a cada ciclo, apenas para regressar ao mesmo ponto: falta de ambição e de ideias novas.

Como é possível liderar o organismo máximo do futebol português e cometer um erro tão elementar? Como esperar que o futebol feminino em Portugal seja levado a sério, se quem o representa o reduz a um marco que já foi ultrapassado duas vezes?

Não se exige que Pedro Proença seja especialista tático. Exige-se, no mínimo, que conheça os marcos históricos das seleções que lidera. Porque não é só uma gafe é uma ausência de atenção institucional. E é também um reflexo da forma como o futebol feminino é frequentemente tratado: com simpatia superficial, mas sem verdadeiro compromisso transformador.

“Todas elas têm um comportamento absolutamente profissional e tenho a certeza de que estamos a fazer, todos, este trabalho muito bem.”

Mas será mesmo? Quando uma seleção entra num Europeu e sai com as mesmas dúvidas, os mesmos erros, o mesmo treinador que já provou ser incapaz de mais, que trabalho é esse que está a ser feito “muito bem”? Que mérito há na estagnação?A renovação não é apenas desejável.

É inevitável. O futebol feminino português precisa de ousadia, de novas lideranças, de alguém que olhe para a convocatória com espírito de futuro e não apenas com respeito por hierarquias antigas. Precisa de alguém que aposte, que arrisque, que transforme.E mais do que tudo, precisa de ser levado a sério. Nas palavras, nas ações e nos planos. Porque enquanto os discursos forem feitos com datas erradas e elogios automáticos, continuará a parecer que a verdadeira barreira ao crescimento do futebol feminino não está nos pés das jogadoras, mas sim na cabeça de quem o dirige.

Deixe um comentário

Tendência