Na tarde abafada do dia 23 de junho, o Estádio José Gomes, ali mesmo na Reboleira, foi o palco de um daqueles jogos que dizem pouco no marcador, mas muito nas entrelinhas.

Foto: FPF

Portugal e Nigéria não passaram do nulo no último jogo de preparação das Navegadoras antes do pontapé de saída do Euro 2025. Mas quem olhar só para o resultado, não entendeu o verdadeiro enredo da história.Este não foi apenas mais um particular. Foi o derradeiro teste, o último exame antes da nota final.

Francisco Neto, com olhos de quem já vê a Suíça ao longe, embaralhou o onze, experimentou dinâmicas, procurou respostas. Afinal, há decisões duras para tomar, 26 jogadoras para 23 lugares no voo com destino à esperança.

Entre regressos emocionantes à lista de convocadas para o jogo (embora não tenham jogado)como os de Lúcia Alves e Joana Marchão, curadas das feridas que as afastaram e estreias que farão parte de futuras memórias Bárbara Lopes e Samara Lino vestiram pela primeira vez a camisola das Quinas este jogo foi mais do que um simples empate.

Foi uma carta de intenções, cheia de entrelinhas e subentendidos.Durante a primeira parte, Portugal teve mais bola, mais critério, mas pouco veneno. Diana Silva e Jéssica Silva, nomes de peso no ataque, estiveram perto, muito perto, mas o quase não ganha jogos e a guarda-redes Nnadozie fez questão de lembrar isso a cada estirada.

Do outro lado, a Nigéria esperava, espreitava, e quando pôde, quase gelou a Reboleira com um remate ao ferro que fez prender a respiração a quem sonha com um verão de glória.

No miolo, brilhou Beatriz “Meio Metro” Fonseca, incansável em arrancadas pela ala, empurrando a equipa com a coragem de quem sabe que nem sempre o talento tem de ser alto.

Ana Seiça, na retaguarda, limpou o que havia para limpar, como quem diz presente num momento de indecisão coletiva.

Foto: FPF

A segunda parte trouxe novas caras, novas intenções, mas a mesma frustração. Jéssica Silva teve nos pés o golo, isolada, mas hesitou. E contra equipas como a Nigéria, hesitar é perder o tempo certo. Portugal continuava a rondar, como quem bate à porta sem ousar entrar. E a Nigéria, resiliente, quase se aproveitava da hesitação com um balázio à trave que por milímetros não virou tudo do avesso.

Nos minutos finais, o jogo perdeu ordem e ganhou coração. Mais substituições, mais estreias, mais tentativas. Stephanie Ribeiro ainda teve a última palavra nos descontos, mas o remate saiu ao lado como que a dizer que este capítulo ainda não era para ser fechado com festa.E assim terminou o ensaio. Sem golos, mas com notas importantes.

O teste não foi brilhante, mas não há derrotas para contar e depois de quatro desaires seguidos, o empate até soa a travão no declínio.

Agora, resta o silêncio da dúvida: quem ficará de fora? Três jogadoras verão o Euro pela televisão. Para elas, esta noite teve um sabor amargo, disfarçado de oportunidade.

Na próxima quarta-feira, Francisco Neto revelará a lista final. Até lá, a ansiedade reina. Porque a Reboleira pode ter sido apenas um jogo, mas também foi um espelho onde se viu talento, nervos, e um grupo que ainda procura encontrar-se totalmente antes de se lançar à conquista da Europa.

O sonho começa em breve. Mas para quem viu este empate, sabe que antes da glória, há sempre uma travessia cinzenta. E Portugal está a meio dela.

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